4 de mai. de 2009

A crônica do noticiário ou mudar pra quê se você pode se adaptar

Não há nada melhor para mudar paradigmas, opiniões, conceitos, pré-conceitos, regimes e sistemas do que os tempos de vacas magras. Desde que o samba é samba é assim, e só escapa dessa arapuca existencial quem consegue se adaptar. Um exemplo? A disciplina e o milenar hábito de replicar dos chineses que conseguiu piratear até o capitalismo. Ainda em janeiro chamei atenção ao fato de que os tempos são outros e fenômenos nunca dantes imaginados ocorrem aos borbotões nessa Terra de meu Deus.

Lula, agora o político mais popular do planeta segundo Obama, escreve artigos para o Le Monde e pro Financial Times . Dizem que Diogo Mainardi, desde então, anda roxo de inveja. Clodovil virou purpurina antes de se enlamear com mais um escândalo do Congresso. Os parlamentares brasileiros com passagens aéreas nas mãos jogaram mais um tema de interesse público na privada, mas ao menos agora existe uma explicação, no melhor estilo política de redução de danos, para o apagão aéreo (lembra?): a culpa pelos atrasos e acidentes nos vôos ano passado sempre foi dos parentes e aderentes de deputados e a gente não sabia, ô raça.

Jarbas Vasconcellos atirou no pé , tentou, mas “quem tirou Fernando Gabeira do posto de reserva moral da nação foi Joaquim Barbosa” que, entre farpas, cobras e lagartos nas seções do STF, deu um cala-boca em Gilmar Mendes desafiando-o a pronunciar Protógenes ao contrário. Amy Winehouse passou as férias no Caribe enquanto Fábio Assunção e Casagrande provaram que celebridade brasileira sob contrato com a Globo também dá uns tecos. Lula, surfando na marola, colocou a culpa da crise mundial nos loiros de olhos azuis. Dilma Roussef – com linfoma e tudo – continua nas graças do presidente, a oposição esperneia reclamando de campanha eleitoral fora de época e a Ministra responde fazendo pose de Miss Simpatia a frente do PAC. Roberto Carlos fez festa para celebrar seus 50 anos de carreira acompanhado por piratas Somalis que resolveram tocar o terror na costa do Oceano Índico ao som de We are the World.

O Brasil força a barra para entrar no Conselho de Segurança da ONU através do sistema de cotas, Chuck Norris faz paródia de Bráulio Tavares e torce pro deserto virar mar e o Texas ficar independente. No Rio, o melhor atacante do Flamengo é um zagueiro do Botafogo, o choque de ordem foi apelidado de Operação Enxuga-Gelo e a Vila Cruzeiro ganhou ares de Petrópolis com direito a imperador e dia do fico. Na Paraíba pós-embargos e com ajuda do acordo ortográfico, Cássio Cunha Lima foi despejado e o Estado enfim, pôde dormir tranquilo ao passo que Maranhão penetrava com todos os trocadilhos e piadas de duplo sentido pelas portas do palácio onde Ariano Suassuna um dia ousou andar nu, boa noite!

18 de mar. de 2009

anônimo e hipócrita - não dá pra ser quando você tem opinião

Interessante observar os comentários das pessoas, quase todas anônimas, no blog A culpa é do cliente.

Antigamente era outro o rebuliço, causado pelo então fotolog Agoralascou. Mais ou menos nessa mesma época, a Zag soltou uma série de anúncios institucionais como esse, se posicionando frontalmente contra as más práticas da propaganda. Em uma das peças, havia inclusive uma confrontação direta às outras agências, com informações que davam conta de que a agência dispunha de muito mais knowhow que as outras, e que por isso os clientes não deveriam perder tempo e dinheiro. Lembro que à epoca, fui um dos que reagiu irado contra aquele aparente absurdo que era atirar contra as outras agências, os colegas e etc... Mas olhando para trás e, principalmente lendo este anúncio, vejo como estava equivocado. O que a Zag fez, não só com esses anúncios que eu julgo brilhantes, foi algo que até hoje pouquíssimas pessoas fizeram pela propaganda paraibana. A Zag deu uma lição a todo mundo, inclusive a mim, do que era o diabo do posicionamento. Quem dispunha de arsenal neurônico para compreender além das linhas, sabia que naqueles anúncios existia uma mensagem maior do que simplesmente: somos bons.

Tomei como exemplo essa história para lamentar que todo mundo leia o tal blog e que o máximo que se consiga fazer seja encher uma caixa de comentários de impropérios, piadinhas e outras sacanagens.

Não sei se existe culpa exclusiva pelos trabalhos fracos, malfeitos, feitos com desdém. Mas senti vontade de comentar quando observei que o blog apócrifo conseguiu dar uma lição de moral no mercado. Ninguém parou em nenhum momento pra avaliar nada. Apareceram alguns pra defender as peças, outros para falar do dono da agência, outros pra falar da agência, outros para pedir que se postassem peças boas ao invés de peças ruins, xingamentos ao dono do blog,saiu de tudo, menos comentários lúcidos sobre a qualidade da peça.

A minha opinião sobre a peça foi postada sob o codinome de Eitador, apenas por uma questão de constrangimento. Conheço boa parte das pessoas que participaram do trabalho e achei que seria deselegante, mas olha...acho que me arrependi. Não há o que temer quando você emite uma opinião sobre qualquer coisa desde que você embase, tenha argumentos suficientes para segurar a onda. E quanto ao que disse no comentário, é exatamente aquilo mesmo que queria dizer.

As duas peças são fracas. A primeira é quase um informecial, só que toscamente produzido. Coisa aliás que já fiz em minha carreira, já vi roteiros criados por mim naufragarem pela minha falta de inspiração, pela falta de profissionalismo do cliente, do fornecedor e da agência. Isso mesmo, a Culpa nunca é de alguém isoladamente.

A peça institucional da Tag Group tem uma arte que poderia chamar de agradável, existe aí um trabalho de direção de arte, sim. Mas Direção de Arte - perdão pela redundância, sem um texto convincente: não convence. A campanha como um todo não diz nada sobre o que é a agência. A única coisa que faz questão de frisar é a experiencia do seu dono. Aliás, legitimamente. Mas o que a Tag oferece que só ela tem? Anos de Experiência? A Real, a Oficina, a GCA, a Antares deixam-na no chinelo. Foco no planejamento estratégico? Com uma campanha institucional que não define nem os próprios atributos que se quer vender, não me parece que seja o caso.
Foco na excelência criativa? Não preciso falar sobre isso. Tomando a liberdade de dizer no que a Tag Group é diferente: Frank Ramalho e sua empresa sempre foram um reflexo entre si, desde a época em que ainda era estagiário em um pequeno escritório da Ponto D na Torre: uma empresa arrojada, eficiente, agressiva, objetiva e ao longo do tempo organizada e sólida. É isso que a Tag tem que nenhuma outra agencia, tem.

A pouquissimo tempo vi na Internet uma polêmica envolvendo a discussão entre 2 grandes publicitários brasileiros: Nizan Guanaes e Fabio Fernandes. Um defendendo um certo tipo de procedimento, outro colocando novos modelos sobre a crise. E o mercado é assim: a Tag é o que é porque quem a dirige quer que assim seja e acho que deveria sempre anunciar-se ao mercado assim. Somos bons porque somos matadores. Com a gente não tem gracinha. Nossa agência é especialista em matar job. E pronto. O que há de errado nisso? Ou será que só na Tag se mata job? Acho que a hipocrisia é que leva a criação de peças como essa de Obama, Madonna ou Amy Winehouse, seja lá qual famoso ou artifício bonitinho para não ser verdadeiro e transparente. A Tag não é sinônimo de sucesso do Obama. A Tag é, forçando muito, sinônimo de sucesso do Lula, por exemplo. Um brasileiro humilde, trabalhador e que chegou a presidente após anos de trabalho e muita insistência. A Tag mata jobs, é isso aí. O que mais há de se discutir sobre isso?

Faço questão de afirmar que o modelo de negócios vencedor da Tag Group, a mim , não parece o mais correto. Mas não sou dono da verdade. Eu, como profissional graças a Deus, ainda posso escolher onde e como trabalhar da melhor maneira. E acho que é por aí. O profissional precisa se acostumar a ter opinião, ser contra ou a favor, se expressar, tomar partido nas questões que envolvem o dia-a-dia do seu trabalho. Porque a pior coisa do mundo é estar em um lugar sem sentir paixão pelo que faz. É se aliar a má vontade, a preguiça e a leniência para se aproveitar e colocar a culpa no outro, assim como se coloca a culpa no cliente. Fazer anúncios ruins, não reclamar das condições em que se trabalha, se acomodar porque a verba é curta e o prazo apertado não são solução pra engradecimento profissional de ninguém.

ps.
É bom que se diga, aliás, que comecei a trabalhar em publicidade como estagiário de criação na Ponto D, em 2000. Logo, estava ali nos primeiros 2 anos de experiência de F. Ramalho.

12 de jan. de 2009

acordo ortográfico em trinta segundos

Os tempos são outros.
Ora, veja, hoje ideia não tem mais acento.
Para a alegria dos Franklins, Washingtons e Allyssons, as 23 letras do alfabeto agora são 26.
O hífen, esse incompreendido, acaba de entrar quentinho no forno de micro-ondas.
O acento de voo, foi-se.
E ainda que o trema não mais exista, você não pode sair por ai enchendo linguiça, não é verdade?
A língua evolui, e você?

28 de jul. de 2008

O que procuro no portfólio de um criativo ?

1) O que não existe no meu portfólio

Um processo de seleção consiste basicamente em avaliar que contribuições, o profissional que quero contratar vai trazer pra mim, pra minha equipe e pra agência em que trabalho.

2) Senso de humor

Não acredito em criação sisuda, pomposa, sem um pingo de senso de humor e autocrítica.

3) Pastas coesas e sucintas

Todo ato criativo só se materializa quando consegue se harmonizar com os limites de tempo e espaço. Então, na hora de montar uma pasta: priorize, mantenha só as melhores. Shortlist nelas!

4) Capricho na apresentação

Em casa de ferreiro, o espeto precisa ser de titânio.

5) Idéias que aproximem as pessoas dos produtos ou serviços anunciados. Quanto menos cara de propaganda tiver, melhor

Cá pra nós, muitos de nossos parentes, amigos e vizinhos estão de saco cheio de propaganda: aquele carro de som chato que atrapalha o sono do sábado pela manhã, a letra miúda que contradiz o atributo do anúncio, o maldito efeito sonoro de filme de ação em comercial de varejo. A verdade é que as pessoas querem mesmo é viver, descansar, sorrir, passear na praia, beijar; e nenhum desses programas aí precisa de intervalo.

6) Raciocínios surpreendentes, pensamentos não-convencionais, ângulos mentais inusitados

Gosto de olhar um portfólio e dizer: putz, jamais faria isso desse jeito!

7) Se for redator: referências de artes plásticas. Se for Diretor de arte: referências de leitura.

“Escreveu, não leu: virou diretor de arte.” Quando escuto essa frase, mais me convenço de que profissionais de criação publicitária precisam adquirir conhecimento e vivência fora do universo da publicidade.

8) Senso de oportunidade

Anúncios de oportunidade: taí uma ótima oportunidade para avaliar a sua capacidade de gerar soluções.

9) Outros trabalhos além de anúncios que demonstrem a criatividade e as referências do candidato

Se não tiver feito mais nada além de anúncios, filmes, folders ou spots; conte um case, acho que em determinados casos, vale mais que prêmio.

10) Conhecer quem dupla com o avaliado.

Capriche na ficha técnica das peças, junto de um criativo sempre há gente muito interessante para falar de você.


Texto originalmente publicado no site Gogojob

13 de jun. de 2008

Control X - Privê Serrotão

A notícia da existência de um insólito "condomínio privê", no Presídio Regional do Serrotão em Campina Grande - onde os presos teriam regalias superiores às dos marajás indianos -, açulou o imaginário paraibano. O fato foi constatado pela Polícia Federal ao desencadear a "Operação Albergue" visando a repressão ao tráfico de drogas e armas, na citada unidade prisional, além de corrupção e fugas facilitadas.

Num Estado onde o governador coleciona cassações e está no cargo por efeito de liminares, o fato soa como algo excêntrico e pitoresco. É a conseqüência de um governo associado à figura do engraçado ator da bufa campanha publicitária "Pé na Estrada". Não faz nada, mas viaja e como viaja...só viaja!


Josinaldo Malaquias em trecho de artigo recortado da edição de 07 de junho do jornal Correio da Paraíba

27 de mai. de 2008

A crônica do noticiário ou tudo em família


Deveras saudável é opinar sobre temas quentes de cabeça fria. No país da piada pronta, não se falou em outro assunto, durante o último mês, que não no famigerado Caso Isabella. Não houve escândalo sexual com travestis, terremoto ou ciclone extratropical que retirasse os detalhes sórdidos – contidos na trama da morte da menina, dos holofotes da grande imprensa.

A indignação tomou conta dos lares com ares de novela: policiais e promotores inauguraram a novíssima Escala de Resolução de Crimes Insolúveis que vai de “tudo leva a crer até indícios comprovam”, produtores e editores importaram das transmissões esportivas, as mesas redondas com direito a comentaristas, experts em linguagem corporal e até os famosos especialistas em leitura labial.

Enquanto promotores apontavam que 70% do caso estava concluído e tudo indicava para a possibilidade de homicídio triplamente qualificado, apresentadores e repórteres rasgavam suas pautas e tratavam de pautar a justiça especulando quando enfim, seria decretada a prisão preventiva dos vilões. Depois de muito se falar, os vilões de duas caras foram presos. Mas há quem se pergunte quando e como serão os próximos capítulos da novela: acareação entre legistas ao vivo na Máquina da Verdade do Leão, depoimentos dos principais acusados direto do Arquivo Confidencial do Faustão e enfim, o júri popular no melhor estilo Paredão do BBB.

Da janela discreta com tela de proteção, o assassino atirou junto com o corpo de Isabella Nardoni, todos os conceitos, preconceitos e clichês de regras simbólicas que representam o que temos de pior. A família é uma instituição sagrada, o “cidadão de bem” tem direito de se proteger, em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, defenda-se a honra, alveje e lave com sangue bem quente.

E assim, é inevitável constatar que Isabella mora ao lado.

No país dos dossiês, em que o direito à indignação é sagrado, onde a presunção de inocência agora ou é álibi ou permissão para transgredir: a sagrada família segue entre socos, sopapos e pontapés, golpes, traições, estupros, assassinatos e lesões corporais, sustentada pelas bênçãos da hipocrisia, amém.

10 de abr. de 2008

MixWit - a playlist de hoje com o estilo de ontem

Foi-se o tempo em que o dono de uma fita cassete era obrigado a manter o ouvido extremamente aguçado para perceber quase que de maneira premonitória, o início daquela canção que só passava umas 3 vezes durante a programação das rádios FM.

Foi-se o tempo também, em que os donos das fitas gravavam versões exclusivas dos discos que pegava emprestado, mixando músicas de outros álbuns e as vezes apenas alterando as seqüências das faixas dos lp's.

Foi-se o tempo, mas ficaram os dedos.

Clique aí, escute minha playlist bem descompromissada e depois vá lá brincar você, também.




fonte

18 de mar. de 2008

Zenas Emprovisadas

O que aconteceria se misturassem em um mesmo espetáculo de teatro, o humor irreverente e criativo do carioca com os elementos básicos do stand-up americano? E se junto a isso, incluíssem a participação especial da platéia e de atores e diretores para fazer tudo de improviso?

O resultado deu no Zenas Emprovisadas com os excelentes: Marcelo Adnet, Gregório Duvivier, Fernando Caruso e Rafael Queiroga. Mais informações você confere, aqui.



Tem mais nesse aqui e nesse também.

17 de mar. de 2008

as maravilhas da comunicação instântanea - volume três

Oráculo diz: Fala aí viadão…

Oráculo diz: Já comprou minha parada?

.:última mensagem recebida em 15/03/2004 às 14:45:.

Oráculo diz: Mas tu é muito fresco, hein...Cade tu , viado?

.:última mensagem recebida em 15/03/2004 às 16:12:.

Oráculo diz: Fala, caralhooo!!!

Professor Peppe diz : Senhor, desculpe, aqui é a Edith, Secretária do Senhor Caio.

Professor Peppe diz : Ele está em uma reunião. Posso ajudá-lo?

.:Oráculo está offline. As mensagens serão entregues quando este contato entrar:.

Exercitando Tutty



Na briga entre Colômbia e Equador, Hugo Chavez resolveu meter a colher. Segundo Chavez, o café da Colômbia no Equador é mais forte.

Control X - A Lula o que é de Lula

No dia em que o IBGE divulgou a vigorosa expansão da economia em 2007, o presidente Lula, um dos pilares desse crescimento, teve a chance de regalar-se com o glorioso PIB 5.4 e mostrar porque é o maior sintetizador das contraditórias forças socioeconômicas brasileiras.

Nosso presidente discursou diante de duas platéias bem distintas ao longo do dia brasiliense: 1) a claque de evento comemorando os quatro anos do Ministério do Desenvolvimento Social, aquele do Bolsa Família 2) a platéia de empresários do seminário da revista "Economist" sobre o Brasil (até os britânicos começam a se interessar mais pelo país).

À primeira platéia, mais político, mais duro, Lula cobrou dos céticos as críticas e as previsões mais pessimistas para o ano, louvou o Bolsa Família e disse que o mercado interno garante o crescimento, o que significa que "os pobres estão comendo mais, os pobres estão vestindo mais". É verdade.

Já no seminário da "Economist", a revista britânica liberal e opinativa que se tornou um dos maiores formadores de cabeças globais, ele foi mais comedido. "Não almejo que o Brasil fique crescendo a taxas de 10% ou 11% ao ano, prefiro que se cresça por muito tempo a taxas de 5% para que a indústria possa acompanhar o crescimento da demanda paulatinamente... Não quero momentos de euforia, quero momentos de responsabilidade".

A economia brasileira apresenta sinais de vigor há muito ansiados. Os investimentos cresceram 13,4% em 2007, o que deve elevar a oferta e ajudar a conter a pressão inflacionária neste ano de consumo quente, evitando alta nos juros. O crescimento se divide pelos diversos setores, com serviços, indústria e agropecuária crescendo a taxas em torno de 5%.

A questão se foi Lula ou se foram as circunstâncias históricas e externas que trouxeram este avanço econômico sempre existirá. O principal talvez seja mesmo o mero acúmulo de anos e anos de relativa estabilidade econômica e relativa responsabilidade fiscal, e daí méritos óbvios à era FHC. Mas a mudança de patamar está acontecendo sob Lula, após cinco anos de seu governo (e oito de FHC).

Sim, criticar é preciso e preciso. São gritantes as deficiências na gestão. Os gargalos de infra-estrutura, a ineficiência jurídica, a insegurança pública, a burocracia asfixiante, o caos tributário, tudo ainda sob uma imensa carga tributária demandada por um Estado caro e corrupto. Essa é a equação do atraso, a banda podre que nos aprisiona e contra a qual Lula parece incapaz de agir, para dizer o mínimo.

Mas, ainda assim, a economia avança. Os pobres comem mais, os ricos lucram muito mais. Nossa vocação para um mercado interno exuberante, na definição de Delfim Neto, começa a realizar-se.

Mãe dos pobres, pai dos ricos, Lula consegue ser ponte entre as distante extremidades da população brasileira. A, desculpe o palavrão, elite sempre governou o Brasil. Lula é nosso primeiro presidente popular no sentido raso da palavra. Entende como nenhum professor da USP as necessidades do andar de baixo. É necessário para legitimar a democracia, mesmo ineficiente, de um país tão desigual.

Pode não ser a melhor ponte, mas é por ela que atravessamos.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo.

12 de mar. de 2008

Dupla Penetração




Mônica Mattos, em menos de um mês, foi perfil da Rolling Stone e deu entrevista na Globo, ainda que às Altas Horas. A musa pop da pornografia brasileira, anda na contramão das pseudo-celebridades: é sucesso de público e crítica tanto no underground x-rated quanto no mainstream. A manter-se o ritmo, quem sabe não grava uma novela.

28 de fev. de 2008

INDIECA -VOLUME III (Holly Golightly)



A nossa resenha pede um tempo para o indie rock e decide se embrenhar pelo folk-rock de Holly Golightly.

A cantora que usa o nome da famosa protagonista vivida por Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo (1961), filme baseado em um roteiro adaptado do romance Breakfest at Tiffany’s escrito por Truman Capote, nasceu na Inglaterra e toca um som cheio de referências do blues, soul e folk rock americano.
Holly já fez registros em diversas bandas como The Whitestripes, Mudhoney, Rocket From The Crypts e The Greenhornes. De 1991 até 1999, anos em que gravou 6 discos com a sua banda de Garage Punk, Thee Headcoatees, Holly acumulou bastante experiência no rock n’ roll.

Seus discos solo, porém são todos dedicados ao folk rock com pitadas de blues espalhadas aqui e ali, a exemplo das faixas, There is an end e Tell me now so I know gravadas para a trilha sonora do filme Broken Flowers (2005)

O disco You Can't Buy A Gun When You're Crying (2007) foi gravado com a banda The Brokeoffs, e aprofunda as raízes no folk,como você pode conferir na faixa Devil Do, que podia entrar no setlist do The Whitestripes sem ser sequer notada. Aliás, os irmãos White estão tão próximos de Holly Golightly, que além de abrir vários shows da dupla, a cantora já fez inclusive os vocais da canção It's True That We Love One Another (Elephant, 2003), em que Jack, Meg e Holly celebram quase numa toada country, as afinidades e o amor que os unem.

Depois de tanta água, agora deixa rolar o som.
Aproveitem.

Devil do




There is an End


entre a vida e a morte ou a crônica do noticiário

O Brasil passou de devedor a credor, pagou e apagou o FMI dos muros pichados das grandes cidades enterrando a diversão de milhares de militantes juvenis da esquerda revolucionária brasileira. Os EUA estão em baixa, à beira da recessão e com uma crise imobiliária que faz os mutuários da Caixa Econômica Federal no Brasil se sentirem orgulhosos dos seus saldos devedores.

O cinema nacional está em festa: em menos de 10 anos ganhou seu segundo Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim, desta vez com o cult-pop, Tropa de Elite. Que Costa Gavras não nos escute, as más línguas creditam o sucesso do filme no festival ao reconhecido gosto alemão por tendências fascistas: heil, Nascimento!

A CPMF reencarnou em forma de aumento no IOF. Os cartões de crédito corporativos fizeram lembrar Cazuza e cortaram como navalha a cabeça de uma Ministra da Igualdade, que resolveu mostrar a cara. Na esquina do meu trabalho, a Gangue da Moto Preta matou um integrante da Família dos Amarelos, a Imprensa Marrom escreveu algumas linhas, mas o assunto como sempre passou em brancas nuvens. Então, vida que segue.

O Flamengo ganhou do Vasco, mas a torcida cantou vice de novo pro Botafogo. José Dirceu, o galã da esquerda latino-americana, se mantém como consultor e não cansa a beleza porque não vive sem os seus cremes. Fidel Castro ainda não disse adiós, mas a América já acena com um hasta la vista, baby.

No Rio de Janeiro, ninguém sabe quem é polícia, milícia ou traficante, os políticos procuram respostas em Medellín enquanto a população, feliz, se esquiva das balas perdidas, dançando o Créu

Em São Paulo, primeiro foi o PCC, depois os motoboys e agora foi a chuva que parou a cidade: ninguém entra, ninguém sai. A classe média, agora elite branca, não tá nem aí pros direitos dos mano, pou. Nem das mina, pá. Tá ligado? A prefeitura quer revitalizar o Centro, o Corinthians quer construir um estádio. A população quer andar pela cidade, mas se correr o marginal pega e se ficar, a marginal, alagada, come.

E antes que subam os créditos, minha filha precisa dormir e eu preciso pensar, porque o país inteiro está jantando agora e as pessoas da sala de jantar são ocupadas.

Boa noite.

22 de fev. de 2008

Fidelização


Se há algo que sempre me chamou a atenção em relação ao comunismo foi a impressão de que só o capitalismo seria capaz de produzir miséria. Com o passar dos tempos e dos regimes comunistas e socialistas por todo o mundo, o mito caiu por terra e mar, só faltava a ilha. No entanto, ainda que o Comunismo Revolucionário Cubano esteja se esvaindo, Fidel Castro pode se gabar de ter criado em Cuba uma espécie de pobreza qualificada: gente letrada e formada em boas escolas, mas sem o auxílio completamente supérfluo dessas coisas retrógradas que se convencionaram chamar de emprego, mercado, dinheiro, etc.

Há na ilha, semanticamente cada vez mais ilha, um "exército-cabeça" de barriga vazia acostumado à rotina de livro pra comida e pra educação.

Cuba hoje tem atletas, cientistas, médicos, professores e até escolas de cinema de vanguarda, todos ilhados e prontos para preservar os ideais da revolução para além dos discursos do comandante-em-chefe.

Fidel renunciou ao cargo de presidente, mas não ao poder. Poder, aliás, que corrompe tanto no capitalismo quanto no comunismo.

INDIECA - VOLUME II (PUEBLO)

Banda Sueca que toca um rock pra lá de melancólico muito parecido com bandas como Arcade Fire e Smog. Nas pesquisas que começaram através da indicação do trio Peter, Bjorn and John feita na seção “Listas” da Rolling Stone até a versão sueca do Last.FM, ficam claras as referências do country rock e do pós-punk britânico do final dos anos 80. A música que escolhi pra ilustrar foi Streetfighting, segunda faixa do único disco da banda, Darkness Keeps on Rising.Ouça e guarde para escutar naquelas manhãs chuvosas de maio perto de alguma janela, mas cuidado pra não cair!

Streetfighting


30 de jan. de 2008

INDIECA - VOLUME I (Maxïmo Park)



bandas que você nunca ouviu, falar.

Trata-se de uma banda britânica que já gravou 2 discos e lançou uma coletânea de b-sides. Vamos aos rótulos: indie, britpop, pós-punk, lembra The Smiths. Ahh, antes que me esqueça o nome é uma homenagem ao libertador de Cuba, o dominicano Maximo Gomez, que dá nome a uma praça de Miami conhecida como Domino Park pela enorme quantidade de velhinhos praticantes do dominó. Mas como trata-se de um representante dos indies, a história mais cool sobre a origem do nome da banda é a que circula pela internet, que dá conta da existência de uma espécie de coletivo revolucionário que se reunia em algum lugar de Cuba chamado Maximo Gomez Park, antes da Revolução de 1959.

Ouça e prepare-se para citá-la em uma dessas incontáveis conversas de pé-de-mesa.

Apply Some Pressure

18 de jan. de 2008

as maravilhas da comunicação instantânea - volume dois - bonitinha, mas ordinária

Garota Interrompida> diz: Olááááááááááááá´!!!

Garota Interrompida> diz: vc q é uma pessoa inteligente, me diz o q isso significa

Oráculo> diz: uhmm, manda...

Garota Interrompida> diz: “A compaixão nem sempre é virtude, pois quem poupa a vida do lobo condena à morte suas ovelhas”.

Oráculo> diz: vc não entendeu?

Oráculo> diz: :S

Garota Interrompida> diz: naooooooooooooo

Oráculo> diz: qd vc tem compaixão pelo lobo e deixa ele vivo...

Garota Interrompida> diz: me diz ai como faço pra entender

Oráculo> diz: ... ele vai matar as ovelhas

Oráculo> diz: logo, nem sempre é bom ter compaixão.

Oráculo> diz: sacou?

Garota Interrompida> diz: ahhhhhhhh!!!

Garota Interrompida> diz: e quem são as ovelhas?

So long, Mr. Nice Guy


Gustavo Kuerten vai parar de jogar tênis profissionalmente aos 31 anos. O tenista catarinense, ex-número 1 do ranking da Associação de Tenistas Profissionais, vai deixar de jogar sem ter realizado o desejo de muitos, e dele próprio, de repetir as temporadas avassaladoras que o mantiveram 43 semanas como o melhor tenista do mundo, à frente de tenistas como Andre Agassi e Pete Sampras. A despeito dos velhos vícios e clichês que envolvem a análise do fim de carreira de um grande ídolo do esporte, é preciso reconhecer que Guga jamais precisaria erguer-se além da estatura de grande ídolo que possui. Sua grandeza, aliás, sempre foi essa: compreender exatamente a sua dimensão como esportista.

Agora, a carreira de Guga já tem data marcada para acabar, mas, abandonar o circuito não o torna menor. Guga pra mim é o símbolo do Brasil que dá certo. É um cara que demoliu o estereótipo do esperto-malando-brasileiro e esculpiu à base de muito saque, suor e backhand a imagem de um sujeito criativo e irreverente, mas também, perseverante e obstinado.

Um cara família, centrado e amante das boas coisas da vida. Nem bad boy, nem bom moço: só um cara legal.

12 de jun. de 2007

O mercado, a polícia e o reino dos caolhos

A Polícia Federal desarticulou uma quadrilha que praticava cartel nos postos de combustível da Grande João Pessoa, prendeu mais de 10 empresários, apreendeu computadores, malotes, documentos e mais de US$ 19 mil em dinheiro vivo. Muita gente foi presa, as negociatas que estavam por trás do segmento de postos de combustíveis foram escancaradas, mas a Operação 274 deveria mesmo servir de lição para o famoso “mercado” da propaganda paraibana.

O resultado da operação não foi surpresa. O que era implícito, mas não menos condenável era a mensagem por trás do cartel.

Os preços combinados, antes de tudo, sinalizam o horror que o empresariado local tem do risco. Evidencia práticas e mentalidades provincianas: falta de respeito com o consumidor, aversão à responsabilidade pela otimização do atendimento, indiferença quanto à gestão e controle sobre procedimentos, treino e capacitação de pessoal.

Um mercado que serve de hospedeiro para uma prática nefasta como o cartel mostra o quanto se ressente de informação sobre noções básicas de marketing e economia. Agências de propaganda deveriam ser as primeiras a rechaçar um tipo de capitalismo suicida que acredita em uma relação de consumo que se encerra na boca-do-caixa. Empresas e empresários que pensam assim não podem ser exemplos de conduta em um mercado, e agências de propaganda não podem fazer coro com a malfadada frase: o mercado é assim mesmo. Não, não é assim. Antes da operação da Polícia Federal bem que o “mercado” poderia ter feito uma campanha patrocinada pela Abap contra o cartel de combustíveis. Mas não fez.

E assim, o que poderia ser case de marketing virou mais um caso de polícia.