27 de mai de 2008

A crônica do noticiário ou tudo em família


Deveras saudável é opinar sobre temas quentes de cabeça fria. No país da piada pronta, não se falou em outro assunto, durante o último mês, que não no famigerado Caso Isabella. Não houve escândalo sexual com travestis, terremoto ou ciclone extratropical que retirasse os detalhes sórdidos – contidos na trama da morte da menina, dos holofotes da grande imprensa.

A indignação tomou conta dos lares com ares de novela: policiais e promotores inauguraram a novíssima Escala de Resolução de Crimes Insolúveis que vai de “tudo leva a crer até indícios comprovam”, produtores e editores importaram das transmissões esportivas, as mesas redondas com direito a comentaristas, experts em linguagem corporal e até os famosos especialistas em leitura labial.

Enquanto promotores apontavam que 70% do caso estava concluído e tudo indicava para a possibilidade de homicídio triplamente qualificado, apresentadores e repórteres rasgavam suas pautas e tratavam de pautar a justiça especulando quando enfim, seria decretada a prisão preventiva dos vilões. Depois de muito se falar, os vilões de duas caras foram presos. Mas há quem se pergunte quando e como serão os próximos capítulos da novela: acareação entre legistas ao vivo na Máquina da Verdade do Leão, depoimentos dos principais acusados direto do Arquivo Confidencial do Faustão e enfim, o júri popular no melhor estilo Paredão do BBB.

Da janela discreta com tela de proteção, o assassino atirou junto com o corpo de Isabella Nardoni, todos os conceitos, preconceitos e clichês de regras simbólicas que representam o que temos de pior. A família é uma instituição sagrada, o “cidadão de bem” tem direito de se proteger, em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, defenda-se a honra, alveje e lave com sangue bem quente.

E assim, é inevitável constatar que Isabella mora ao lado.

No país dos dossiês, em que o direito à indignação é sagrado, onde a presunção de inocência agora ou é álibi ou permissão para transgredir: a sagrada família segue entre socos, sopapos e pontapés, golpes, traições, estupros, assassinatos e lesões corporais, sustentada pelas bênçãos da hipocrisia, amém.