30/12/2011

2011: tente enxergar pelo lado bom.



Já vivemos o suficiente para desmoralizar ao menos duas profecias sobre o juízo final. Por isso proponho que a lente usada para fazer a retrospectiva de 2011 seja trocada e que este ano seja visto pela ótica dos bons olhos.

O ETA, grupo separatista basco, anunciou o fim de suas atividades terroristas. De espanador na mão, Dilma Roussef demitiu 6 ministros acusados de corrupção em 2011. Já no apagar das luzes, a consagração: o Brasil ultrapassou a Inglaterra e tornou-se a sexta economia do mundo.

No ano em que as agências de risco rebaixaram os EUA, Obama anunciou o fim das invasões no Iraque e no Afeganistão. Muitos americanos indignados "ocuparam Wall Street" e a primavera árabe segue, em pleno verão tropical, derrubando velhos ditadores.

Na Itália, apesar das más notícias na economia, Silvio Berlusconi renunciou. E mesmo no Japão - palco do maior desastre natural do ano, onde mais de 10 mil pessoas perderam a vida, há motivos para sorrir: o acidente nuclear em Fukushima fez com que a Alemanha anunciasse o fechamento de todas as suas usinas nucleares

Bin Laden e Kadafi estão mortos, a Rocinha e o Complexo do Alemão foram pacificados, Cássio está no Senado e nas redes sociais ninguém foi tão lido e citado quanto Clarice Lispector.

Você tem motivos de sobra para acreditar que o mundo está melhor, não?




16/09/2011

Aos inimigos, a lei.





Capítulo I - Apenas um fim de semana

Estamos em um cenário paradisíaco no Brasil: Porto Seguro, Bahia. Um grupo de pessoas ricas e bem sucedidas festeja o fim de semana enquanto fazem um traslado de helicóptero para um resort em Trancoso. Como há muitas pessoas, a aeronave precisa fazer duas viagens: o primeiro grupo chega em segurança, mas um terrível acidente impede que as pessoas felizes do segundo grupo - entre elas, a nora do atual governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho - cheguem ao seu destino.

O acaso aquece o que seria o noticiário de um domingo qualquer de inverno brasileiro: descobre-se que o piloto estava com a habilitação vencida há 6 anos; o Governador do Rio afirma em nota oficial que vai até a Bahia acompanhar as buscas; o prefeito de Porto Seguro diz a um jornal de Salvador que encontrou com Sérgio Cabral passeando na cidade um dia antes do acidente; O Globo noticia que Sérgio Cabral viajou até a Bahia no jatinho do empresário Eike Batista... E assim, a comovente história de um acidente que ceifou a vida de jovens, senhoras e crianças de colo se revela numa trama que ajuda a explicar um dos flagelos brasileiros: a promíscua relação entre entes públicos e a iniciativa privada.

Na esteira dos acontecimentos, soube-se que Sérgio Cabral estava entre as pessoas felizes a bordo na primeira viagem de helicóptero à Trancoso. Havia trocado o stress com a greve dos bombeiros no Rio por um fim de semana ao lado do amigo e empresário Fernando Cavendish, dono de uma das empreiteiras responsáveis pela reforma do Maracanã para a Copa de 2014, obra avaliada na casa de R$1 bilhão.


Capítulo II - Os anos do Brasil na França

Do ano da graça de 1999, no Brasil sob a regência de Fernando Henrique Cardoso...Abílio Diniz, dono do Pão de Açúcar, vendia parte de suas ações para o grupo francês Casino. O acordo previa entre outras coisas, que após 13 anos, o Casino controlaria a operação do Pão de Açúcar no Brasil.

Ativemos o capacitor de fluxo para o futuro do pretérito. Como pudemos acompanhar no noticiário econômico em julho, Abílio Diniz ressurgiu com mais um negócio que abalaria as estruturas da economia: uma fusão com as bençãos do BNDES entre Pão de Açúcar e Carrefour que criaria um monstro que abocanharia 27% do mercado varejista no Brasil. De uma só vez, o visionário Diniz levaria na valsa o Casino que, a apenas 1 ano de assumir o controle do Pão de Açúcar, teria que engolir o maior concorrente e o Cade que teria que se virar para justificar o mais novo monopólio no mercado.

Mas aí a imprensa estraga-prazeres, a oposição e a voz rouca da sociedade civil organizada resolveram que seria cínico demais bancar com dinheiro público uma jogada privada. Abílio Diniz foi obrigado a sair à francesa.


Capítulo III - No terreno das hipóteses

Em João Pessoa, um grupo de arrojados empresários demonstram, ao longo dos anos, muito interesse em construir um shopping na Zona Sul da cidade. Muitas das construções mais importantes daquela região são do Governo do Estado como Detran e Acadepol, por exemplo.

Um dia antes do famigerado recesso parlamentar, o Governo envia matéria para votação no plenário da Assembleia Legislativa: uma permuta entre terrenos. No projeto que se pretendia lei, o grupo de empresários receberia o terreno onde hoje está instalada a Academia de Polícia e, em troca, cederia uma área localizada no Geisel, região supostamente menos valorizada, se comprometendo ainda a ajudar o Estado a construir as novas instalações da Acadepol.

O presidente da Assembleia resolveu que o assunto só seria resolvido depois do recesso: a oposição caiu de pau; colocaram a permuta sob suspeita; acusaram o Governo de tentar votar a matéria em toque de caixa; as mesas-redondas sobre política ganharam pauta permanente; setores da imprensa criticaram e/ou apoiaram a iniciativa do Governo em prol do desenvolvimento; muita gente se solidarizou com os "empresários da terra" que só estariam interessados em investir no Estado e após muito lenga-lenga, o projeto foi aprovado.

Após meses de debate estéril, o desenvolvimento de Mangabeira e de toda Zona Sul parecia enfim, garantido. Entretanto, faltava a cereja do bolo: nos dias seguintes à aprovação na Assembleia, a cidade acordou com outdoors assinados por um tal Fórum de Defesa do Desenvolvimento Econômico da Zona Sul que estampavam os rostos dos políticos que foram contra a permuta entre os terrenos.

Epílogo

Dizem que o pernambucano Gilberto Freyre escreveu sua obra-prima Casa-Grande e Senzala porque não conseguia explicar o que era o Brasil aos colegas de estudo no exterior. A capacidade de relativização moral e a astúcia individualista do brasileiro na sua relação entre o público e o privado realmente confundem quem não está afeito aos modos nos trópicos. 

Mas em uma das passagens do clássico que melhor sintetizam o Brasil, Freyre cunha uma frase antológica: “a virtude da senhora branca apóia-se em grande parte na prostituição da escrava negra”.


21/06/2011

Crônica do noticiário e as notas noticiosas


Biodesagradável

Quando Chico César negou o forró de plástico sabia o que estava fazendo. Como se sabe, plástico é material de difícil decomposição, não figura nem no cardápio de micro-organismos. Já o forró, orgânico por natureza, é filho legítimo do ritmo: faz bater do coração às coxas.

Na mesma moeda?

Em João Pessoa, consumidores insatisfeitos com o preço abusivo dos combustíveis resolveram protestar de uma maneira inusitadamente criativa: formaram filas em frente aos postos mais caros para...abastecer.

Na mesma moeda 2?

Insatisfeito com o tratamento dispensado pelo Sistema Paraíba de Comunicação, o Governo do Estado deu o troco: pautou de graça o principal concorrente, o Sistema Correio. O furo, revelado pelo Jornal Correio da Paraíba, foi o suposto perdão de uma dívida do Grupo São Braz com a Receita Estadual no valor de R$ 7,5 milhões. Fogo amigo de chumbo trocado não doi.

Mata a cobra, mas nada de mostrar o pau como mandam as tradições islâmicas

Inimigo número 1 da civilização ocidental, pivô do maior ataque terrorista da história e responsável pelas únicas guerras do século XXI, Osama Bin Laden foi-se sem dar o ar da graça.

A casa caiu

Depois de ser pego na mentira pelo caseiro Francenildo, Antônio Palocci passou por um período sabático na Câmara dos Deputados. Foram-se os anéis, mas Palocci virou coordenador da vencedora campanha presidencial de Dilma Roussef e ganhou o status de "primeiro ministro" na Casa Civil. Mas, eis que o "Pelé foi para o banco de reservas" refrescando as parcas lembranças desse povo desmemoriado: não conseguiu justificar o aumento de seu patrimônio em um ritmo "juscelínico" de 20 vezes em apenas quatro anos.

A Copa na cozinha

Abalada pelos seguidos escândalos de corrupção, a Fifa mantem seu prestígio no Brasil. Preocupado com o ritmo das obras para a Copa de 2014, o Governo Federal editou e aprovou a Medida Provisória 521 que cria um novo eufemismo para licitações feitas em toque de caixa: regime diferenciado de contratações públicas. Agora vai!

24/02/2011

1.0 >2.0




Em tempos de euforia com o poder transformador e revolucionário das redes sociais, que ameaçam regimes totalitários em todo mundo, nada como um quiprocó de condomínio para provar o quanto aqui, nossa noção de democracia é distorcida. Em João Pessoa, a polêmica da desapropriação do Aeroclube da Paraíba e sua repercussão nas redes sociais revelaram que todo o papo de comunicação 2.0 vai por água abaixo quando os interesses 1.0 ditam as regras.

Amparada por uma decisão judicial que, horas antes, lhe garantira a posse do terreno que sedia o Aeroclube da Paraíba, a Prefeitura de João Pessoa decidiu não só ocupar com máquinas e escavadeiras, como também destruir a pista de pouso do aeródromo, mesmo sabendo que ainda cabia recurso. A ação tresloucada gerou repercussão instântanea nas redes sociais e, em pouco tempo, era possível enxergar do alto das timelines no twitter, os estragos causados à imagem da prefeitura. Rapidamente jornalistas e outros setores da opinião pública fizeram côro contra a forma como se deu a ocupação do terreno e, sobretudo, à destruição da pista de pouso. Para piorar, a justiça estadual concedeu liminar reintegrando a posse do terreno ao aeroclube e o imbróglio, que já havia preenchido as pautas do noticiário local, foi parar nos trending topics do twitter no Brasil.

Assim se concebeu a primeira grande crise de imagem da gestão municipal sob o comando de Luciano Agra. Até então, o clima parecia de lua de mel com a opinião pública. A filosofia progressista implantada na capital, que se expandiu para todo o estado com a vitória de Ricardo Coutinho nas eleições de 2010, praticamente desintegrou a oposição partidária e o panorama político foi completamente reconfigurado. Com a docilidade dos principais veículos de comunicação e as benesses proporcionadas pela influência sobre uma sociedade extremamente dependente do poder público, parecia que nada abalaria a imagem de uma gestão democrática, plural e baseada no resgate do cárater público. Parecia...

Mas Luciano Agra evocou Maquiavel e, em uma ação que, se não pode ser classificada como ilegal, foi no mínimo imprópria, implodiu junto com a pista de pouso, parte da imagem democrática que a prefeitura sempre projetou.

Aeroclube da Paraíba e Prefeitura Municipal de João Pessoa perderam juntos uma boa oportunidade enquanto estavam preocupados em transformar uma discussão que poderia ser de interesse público em um embate partidário. Cada lado soltou sua versão em notas oficiais recheadas de acusações e justificativas que escondem, na prática, o descompromisso com a população sobre os reais interesses envolvidos na disputa judicial pela área.

Em que pese parecerem boas as intenções da prefeitura na construção do Parque Paraíba, não se pode deixar de criticar a forma como se conduziu todo o processo de desapropriação. Pior ainda, foi a reação dos responsáveis pela comunicação institucional da prefeitura ao clamor que se seguiu após a destruição da pista. Numa demonstração clara da falta de uma estrutura para gerir crises desta natureza, parte do staff de comunicação da prefeitura limitou-se a defender a ação sob a desculpa de que "cumpriam-se ordens" e que boa parte dos que defendiam o Aeroclube nem sequer conheciam o local, como se isso atenuasse a truculência da ação.

É difícil saber quais são os procedimentos corretos a serem tomados de parte à parte, mas cabe salientar que é a Prefeitura Municipal quem deve maiores satisfações à população. Não basta apenas divulgar que pretende construir um parque no local, se deveria informar quais são exatamente os planos da prefeitura para o local, elencando o que será construído, quais equipamentos estarão disponíveis para a população, os impactos sociais e ambientais da construção e sobretudo, qual a alternativa proposta aos principais acionados na questão - que são, sem dúvida, o Aeroclube e seus associados. Ao invés disso, a Prefeitura preferiu alimentar a sanha político-partidária que paira sobre o problema, tentando desqualificar o Aeroclube reduzindo sua atuação a um grupo elitista composto por alguns poucos privilegiados que querem se colocar acima do interesse público. Uma estratégia que poderia até render dividendos não fosse um pequeno detalhe: há uma instituição civil de utilidade pública federal com direitos adquiridos sobre uma propriedade. Nesse aspecto, pouco importa se o Aeroclube atende a 200 ou a 1000 pessoas. A natureza e as características dos serviços prestados pela associação não diminuem os direitos que esta entidade tem sobre sua propriedade, ainda que existam planos que possam beneficiar uma parcela maior da população.

Em resumo, os fins não justificam os meios e a Prefeitura Municipal deveria ser a última a adotar essa estratégia de confundir as noções sobre o que é público e o que é privado.

19/08/2010

24 anos andando em círculos – O que a história tem a dizer sobre as eleições de 2010 na Paraíba

A primeira eleição que acompanhei na Paraíba foi em 1986. A efervescência pós-diretas-já era contagiante, ainda havia o lamento pela diverticulite que solapara Tancredo Neves da cadeira de presidente, mas a redemocratização era irreversível e, na época, ninguém ligava em ser fiscal do Sarney. O plano cruzado, que tentava derrubar a inflação, se mostrou infalível como cabo eleitoral e o PMDB venceu a eleição em todos os Estados, menos em Sergipe. Ainda hoje, os peemedebistas podem ser considerados integrantes do maior partido do país: é a maior bancada do Congresso Nacional e governa 9 estados.

No Brasil, de Sarney a Lula, pode-se dizer que 5 partidos já ocuparam a Presidência da República: PDS, PRN, PMDB, PSDB e PT. Depois de cumprir 5 anos de mandato, o bigode imortal de Sarney(PDS) cedeu lugar ao caçador de marajás Fernando Collor de Melo (PRN) que logo depois saiu cassado por corrupção. Itamar Franco (PMDB) derrubou a inflação com o topete, Fernando Henrique (PSDB) levou a fama, vendeu a tese da reeleição e cá estamos sob a batuta firme do companheiro Lula (PT).

Na Paraíba, a história anda em círculos. De 86 para cá, nada mudou. Os atores fingem, mas a trama é a mesma – um mesmo núcleo de poder se engalfinha num embate que já teve de tudo: traição arquitetada, acordo de cavalheiros, atentado à bala, dossiês preparados, alianças feitas e desfeitas e até cassação. Mas o mesmo PMDB que elegeu Burity em 1986, em algum momento já abrigou embaixo da saia todos os aliados e adversários de hoje. O PSDB, dissidência de figuras proeminentes do PMDB de São Paulo, na Paraíba apenas acomodou o espólio da crise do Clube Campestre: o grupo dos Cunha Lima, que bateu em retirada após o cisma com o atual Governador José Maranhão, escolheu o PSDB no melhor estilo “não tem tu, vai tu mesmo”.

Pode-se dizer, portanto, que a única novidade, em pelo menos 20 anos de política partidária na Paraíba, foi o surgimento da liderança de Ricardo Coutinho, que de vereador a prefeito de João Pessoa, construiu uma trajetória política de independência e de realizações indiscutíveis.

Fica claro ao se esboçar tal quadro histórico que Ricardo Coutinho já era, bem antes das definições que resultaram na atual composição política das eleições, um forte candidato ao Palácio da Redenção. Basicamente porque a coligação entre tucanos e democratas apresentava evidente estremecimento pelo episódio da cassação do ex-governador Cássio Cunha Lima e, depois, pelas claras mensagens enviadas do próprio ninho tucano dando conta de uma iminente cisão entre o PSDB de João Pessoa e o de Campina Grande. Entre os democratas, havia o desgaste natural de Efraim Morais, cada vez mais ligado a escândalos no Congresso e à atuação de forte oposição ao Governo Lula. O cenário do jogo para 2010 era: Maranhão com um mandato curto e vários impeditivos, fazendo frente a Ricardo e seu mandato de realizações e um projeto falido de aliança entre PSDB e PFL.


"Aliança tirou protagonismo histórico de Ricardo"


O tempo passou e hoje Ricardo Coutinho encabeça chapa na companhia de Efraim Morais e Cássio Cunha Lima, de olho na interiorização de suas bases eleitorais e no fortalecimento de sua imagem junto ao eleitorado de Campina Grande. Entretanto, me parece que a opção pela formalização da aliança com o DEM e o PSDB desconsiderou o contexto histórico, neutralizou o discurso e, principalmente, tirou de Ricardo o protagonismo de ser o único candidato contra o atraso histórico da Paraíba. Ele viu aportar em sua agenda, ações e eventos que em nada casam com sua biografia, como o coro que fez ao bordão “Deixa o povo votar” que, na verdade, era eufemismo para campanha contra a Ficha Limpa. A estratégia eleitoral de Ricardo desconsiderou os prováveis estragos em sua imagem mirando apenas nos ganhos; quando na verdade, o arranjo com cara de gambiarra traz muito mais prejuízos do que benefícios.

Os feitos da administração de Ricardo Coutinho em João Pessoa se devem basicamente à ascensão de um novo modelo de gestão baseado na mudança do perfil de servidor público. Quando Ricardo assumiu a Prefeitura levou junto pessoas com novas ideias, geradas por cabeças arejadas não acostumadas aos vícios do que o funcionalismo tem de pior. Posso dar o testemunho isento porque vi vários colegas, professores, intelectuais, artistas e sindicalistas assumirem cargos na administração, muitos em cargos de liderança. Some-se a isto, a mudança em nível federal que levou muitos quadros da esquerda ao controle de autarquias e estatais, criou-se um ambiente fértil para que florescesse em João Pessoa um estilo de governo reformador e progressista. Tudo isso foi subestimado em detrimento de um suposto ganho de densidade eleitoral.

A aliança tenta a fórceps unir gente que se serve do Estado há décadas com jovens responsáveis pela implantação de um modelo de gestão focado no interesse público. Uma situação difícil de engolir para os aliados históricos de Ricardo, mas que desceu goela abaixo, foi digerida e regurgitada em forma de uma retórica que lembra a moral da história contida em uma das brilhantes frases do publicitário Eugênio Mohallem: “planejamento serve para guiar as campanhas de sucesso e não para justificar as péssimas”.


12/08/2010

Dupla penetração em 140 caracteres - como um redator mudou o posicionamento de uma pornstar




Na indústria pornô nunca houve lá muito espaço para bons títulos, mas um redator carioca radicado em Pernambuco mostrou que o tamanho da imaginação também é documento. Luciano Mattos, 31 anos, resolveu assumir a identidade da pornstar brasileira Monica Mattos no twitter, para provar aos colegas de trabalho na Plano B – agência em que trabalhava em Recife – que a atriz era sua prima. Conseguiu muito mais. Praticando um exercício constante de paciência e inventividade, Luciano provou para mais de 20 mil fiéis seguidores que não é porque contracenou com um cavalo que Monica Mattos teria que ser tratada como burra. Respostas rápidas e raciocínios surpreendentemente criativos para o clichê da pornstar fútil e alienada, rapidamente chamaram atenção e começaram a despertar suspeitas: @Monica_Mattos seria mesmo Monica Mattos?

Parte da dúvida foi desfeita com a entrevista feita por André Maleronka para a Vice Brasil com Monica Mattos em pessoa dizendo entre outras coisas: “começaram a entrar no meu Orkut perguntando, “Esse Twitter é verdadeiro?”Não! Aí a maioria falava “que decepção”. Parecia o fim da relação “Me engana que eu gosto” entre os milhares de seguidores apaixonados pela combinação perfeita da libertinagem de Monica Mattos com a perspicácia dos tweets de @Monica_Mattos. Mas ainda havia para mim, uma missão: descobrir quem era o “fã do Recife”, homem literariamente por trás de @Monica_ Mattos ? Para investigar havia apenas uma certeza: @Monica_Mattos era redator, e dos bons. Depois de juntar pistas oferecidas por Fausto Salvadori e @brancanoescuro com os conhecimentos do mercado publicitário de Lucas Moura descobri Luciano Mattos, chequei sua identidade e marquei uma entrevista, ainda a tempo de ouvir um pouco de sua irritação por não ter sido ouvido pela matéria da Vice: “– Ah, avisa aos cornos da Vice que quero meu direito à réplica agora. Bando de frango!”

A entrevista que se segue aconteceu em um dos raros instantes de folga em uma campanha eleitoral da qual Luciano Mattos é contratado como redator. Paradoxalmente, os bastidores da política lhe trouxeram aprendizados que não conseguiu na efêmera passagem pelo mundo da pornografia: trabalhar em campanha fez o redator que virou pornstar descobrir que ainda “não sabia nada sobre sacanagem”.

***

CSF11: Vi tua entrevista no Boteco Sujo. Curti, tu se posicionou muito bem.

Luciano Mattos: Já tive meus 3 bytes de fama.

CSF11: Na verdade, meu interesse é mais na questão, digamos operacional, de se tornar Monica Mattos. Imagino que deve ter sido uma experiência massa, tipo uma droga que você ia aumentando a dosagem de acordo com o retorno que dava da galera.

Luciano Mattos: É por aí, tenho uma queda por drogas. Brincadeira!

CSF11: Outro detalhe dessa tua aventura (ser a Monica Mattos) que eu achei do caralho, é que você passou uma mensagem meio como subtexto pra nossa indústria, para as agências.

Luciano Mattos: Na entrevista?

CSF11: Na entrevista, também. Mas na historia como um todo.

Luciano Mattos: É, na entrevista eu alfinetei as agências de publicidade como um todo com o lance do redator que ama qualidade de vida. Mas no perfil (do twitter @Monica_Mattos) mesmo, não tenho certeza.

CSF11: A fala da tua esposa, na entrevista ao Fausto (Salvadori, editor do blog Boteco Sujo) se não me engano... cita você como um cara criativo lidando com a caretice das agências.

Luciano Mattos: É cara, na verdade o perfil me tomou tempo e concentração, ela (Mônica) estava certa quando disse que admirava a minha paciência. Precisei de um pouquinho de disciplina, mas a ideia sempre foi ver onde tudo ia dar. Eu sabia que alguma hora ia ser descoberto.

CSF11: Isso é engraçado, porque alguns caras aqui da agência em que trabalho... o Gazatti, redator que é inclusive daí do Recife, começou a especulação sobre a verdadeira identidade de @Monica_Mattos dizendo: -"tenho certeza que esse cara é redator"

Luciano Mattos: Gazatti não sabia quem era? (Risos)

CSF11: Ele foi o primeiro cara que eu me lembro de levantar a bola de que a @Monica_Mattos era alguém talentoso e tal...

Luciano Mattos: Isso é bom. O grande diferencial da onda era que a grande maioria acreditava que era a Mônica. Não conheço nenhum outro twitter assim, que as pessoas achem de verdade que é a pessoa. Talvez sem isso, não faça nenhum sentido continuar, perde toda a graça.

Luciano Mattos: Recebi milhões de telefonemas no dia que saiu a entrevista (com o Fausto) de pessoas me xingando tipo: - meu irmão, tu escondeu de mim durante todo esse tempo, que filho da puta!
Coisas assim. Foi lindo.

CSF11: hehehehe, do caralhooo!

Luciano Mattos: Amigos de infância, que não vejo há anos, só descobriram com a entrevista.


CSF11: Mas quando foi que tu teve o estalo? O que diabos aconteceu pra te dar essa ideia de virar a Monica Mattos? Tu era fã dela? O que te motivou a assumir a identidade dela...exatamente a dela.

Luciano Mattos: Tu leu a entrevista do boteco sujo, foi aquilo mesmo. Por conta do meu sobrenome, o povo da Plano B tirava onda que a Mônica era a minha prima. Daí fiz o twitter dela pra provar que era mesmo.

CSF11: Pior que, pelo menos nas fotos bicho, tu parece com ela pra cacete? (Risos)

Luciano Mattos: hahahahahahaha! Devo dizer obrigado?

CSF11: Fica a dúvida no ar...

Luciano Mattos: Deixa rolar, então.

Luciano Mattos: Ela puxou o lado do meu pai, nunca falei com ela, mas soube que ela curtia e isso me tranquilizou bastante porque eu tinha um sincero medo de ser o primeiro tuiteiro preso do Brasil.

CSF11: Sério, velho? Mas por que? Por que a galera embarcava na fantasia mesmo, imagino.

Luciano Mattos: ah, velho! Sei lá, culpa né? E antes eu não sabia se ela se sentia ofendida ou não.

CSF11: Muito “neguinho” deve ter feito proposta. Convite pra suruba...

Luciano Mattos: Os que fizeram de verdade, eu tirei onda. Foram muitos. Mas também, quem não faria? Uma mina tão bunita, inteligente e liberal, pelo menos jogar um verde vale à pena. (Eu escrevo bunita com u mesmo)

CSF11: A melhor coisa que você fez pela Monica, na minha opinião, foi dar uma personalidade instigante a uma figura que se supunha símbolo do clichê que envolve a atriz pornô. Digamos que tu montou bem a personagem. Alguns amigos me diziam: - “cara, é ela mesmo. Lembro que na entrevista do Jô ela era assim...delicadinha mas escrota”.

Luciano Mattos: Então, essa foi a parte “bunita” da história. Eu fiz aproximadamente 20.000 pessoas reverem seus conceitos. "Porra, de repente, ser atriz pornô é uma opção, e das boas, não?"

CSF11: Enfim, aqui no Brasil diferente dos Estados Unidos, o conceito de pornstar não rola ainda...existe uma ideia fixa de que atriz pornô é puta.Tá aí a Pâmela que enfiou um processo no CQC e vai levar 150 mangos pra casa porque os caras chamaram a mina de puta.

Luciano Mattos: Não to ligado. Quem é Pamela?

CSF11: Pamela Butt, atriz pornô que apareceu lá num quadro do CQC
e os caras chamaram ela de puta, se fuderam.

Luciano Mattos: O CQC gosta dessa onda né? Piada é sempre um perigo, sempre pode perder a medida.

CSF11: Pois é, é aquilo...a sociedade americana é uma das mais puritanas do mundo, mas a industria pornô e toda a cultura em torno disso é extremamente organizada. Aqui rola essa sensação de "liberalidade", mas humorista é o primeiro a dar uma de puritano. Enfim, isso é outro papo.

Luciano Mattos: Mas ainda assim ser puta é um emprego né? E não é muito pior do que qualquer outro. É um freela dos bons: as vezes você acaba com um job gordo e com bafo na nuca, mas na maioria das vezes, tem criatividade e prazer envolvido. (qualquer semelhança com publicidade é pura ficção)


CSF11: Pois é, foi bom você ter falado sobre isso.Dá pra dizer que em publicidade rola mais sacanagem do que no pornô? Essa tua aventura aí na pele da Monica, não te deu a impressão de que tu podia estar fazendo outras coisas, não? Alçando voos maiores do que toda essa porra envolvida na publicidade?

Luciano Mattos: Rapaz, respira fundo. Você está muito magoado com essa tal de publicidade. Pense pelo lado positivo, a gente se fode de trabalhar, mas pelo menos ganha pouco.

CSF11: Nem tenho assim tanto rancor, não. Só sei que já vi muita gente talentosa desistir de trabalhar nessa área. Acho que isso é um crime.

Luciano Mattos: Sim, se eu não for publicitário ou vou trabalhar com qualquer outra coisa que precise escrever, ou vou estudar gastronomia, que tá na moda e acho legal. (Risos)

CSF11: Tu já chegou perto de conhecer a Monica?

Luciano Mattos: Eu tenho o telefone dela, mas ela nunca me atendeu. Deve ser o preço do interurbano.

CSF11: E tua mulher? Imagino que esse encontro aí seria a maior sujeira, não?

Luciano Mattos: Há um tempo atrás até seria, mas agora eu levaria ela junto. A história toda é muito engraçada, né velho? Ela curte hoje em dia, mas quando eu contei pela primeira vez, ela não ficou feliz não.

CSF11: Outra coisa, hoje em dia é bem comum a publicidade se utilizar de perfis famosos no twitter. Nunca te procuraram, não?

Luciano Mattos: Que produtos/clientes a Monica venderia bem, senão artigos eróticos? Não me procuraram não, mas uma sexshop ia se dar muito bem com ela. Ou a própria Monica, que não deixa de ser um produto.

CSF11: Pois é, ela agora disse que não grava mais filmes. O que tu acha disso?

Luciano Mattos: Acho que um dia vou falar isso de publicidade.

CSF11: Tem uma hora que enche o saco, né?

Luciano Mattos: De que?

CSF11: Acho que ela cansou de gravar porque encheu o saco, e isso não é exclusividade da profissão dela.

Luciano Mattos: Isso. Acho que não devíamos ficar falando mal de publicidade, estou desempregado.

CSF11: Tu disse que tava numa campanha, né? Eu diria que você está pondo em prática o que aprendeu como Monica Mattos agora na política.

Luciano Mattos: Eu diria que estou aprendendo que não sabia nada sobre sacanagem. Nem ela, pelo jeito.

02/07/2010

A morte anunciada pela crônica

A seleção brasileira foi eliminada da Copa do Mundo de 2010, ao perder nas quartas-de-finais contra a Holanda, mas a derrota de hoje foi urdida lá atrás quando Dunga preferiu continuar fiel às suas origens e cedeu a uma coerência cega que nos impediu de disputar a Copa do Mundo conforme a essência do jogo brasileiro. Dunga preteriu um eventual sopro de talento dentro do campo pelo calor febril de um grupo fechado por jogadores eficientes, mas medíocres. Assim ganhou e – da mesma maneira, perdeu.

Antes de incorrer no erro de sucumbir à sedução quase irresistível de chutar cachorro morto, é preciso analisar o contexto da chegada de Dunga à seleção para poder entender um pouco sobre sua episódica saída. Em 2006, chegávamos à Alemanha para disputar uma Copa do Mundo como protagonistas do Jogo Bonito: Dunga era comentarista da TV Bandeirantes, Ronaldinho Gaúcho, o melhor do mundo e contávamos com um inegável favoritismo credenciado por entre outras vitórias, uma goleada de 4x1 sobre a Argentina, na final da Copa das Confederações.

A Copa do Mundo começou, o Brasil fez jogos insossos contra adversários fracos até sair nas mesmas quartas-de-finais de agora. E onde Dunga entra nessa história? Entra pelo mesmo lugar em que saíram Roberto Carlos ajeitando a meia e Felipe Melo tirando a munhequeira: a porta-dos-fundos. A proverbial porta-dos-fundos, por onde entraram também teses como a “escalação forçada” de Ronaldo em 98 e o bode expiatório da preparação desastrada em Weggis. Tudo para encobrir o verdadeiro problema: insistir no erro para travesti-lo de coerência.

Assim como Parreira, que preferiu contrariar as evidências e morreu abraçado com o peso extra que carregou no embarque à Copa, Dunga também preferiu se entrincheirar em suas convicções. Chegou à seleção como exterminador do Jogo Bonito, talhado para fazer contra-ponto a tudo que a seleção de 2006 tinha – de bom e de ruim, deu subsídios para a metamorfose da seleção em time de guerreiros: forjados no sofrimento e com sede de justiça, à imagem de seu comandante, prontos para se impor aos inimigos – não necessariamente vencê-los.

Apostou tudo na arte da guerra, na eficiência do futebol circunstancial e privou seus guerreiros dos encantos da arte de seduzir.

Hoje, Dunga tira o time de campo com muito mais acertos do que erros. A maior de suas vitórias foi devolver o orgulho aos jogadores que vestem a camisa da seleção. Uma vitória sua, compartilhada a fórceps por muita gente. Agora ao perder, Dunga devia se dar conta de que um time, as vezes, não precisa de inimigos para perder uma Copa – nem os reais com 11 jogadores em campo, nem os imaginários que atormentam o espírito sem que câmeras e microfones os captem.