21 de nov de 2004

DOIS TERÇOS DA VIDA

Já passava das onze e a porta do quarto continuava fechada. Há essa hora a casa já estava em plena atividade e normalmente era ele quem começava o alvoroço, mas hoje não. - Mãe, porque que o pai tá dormindo tanto? - Não sei filho, deve estar cansado. - Mas eu nunca vi o pai dormir tanto assim, vou lá acordar ele... - Deixa o seu pai em paz, menino! Se está dormindo até mais tarde é porque devia estar precisando, vai arrumar o que fazer! O problema era que ela mesma não se convencia do cansaço do marido. Marieta decidiu espiar o quarto para ver o que estava acontecendo; abriu a porta com cuidado e encontrou o marido deitado, dormindo um sono tranqüilo apesar do barulho de quase meio dia que fazia do lado de fora. Fechou a porta e tratou de por a preocupação para dormir junto com o marido preguiçoso. O almoço foi servido e o dia seguiu como um sábado qualquer. As vizinhas perguntaram, mas Marieta não soube o que dizer porque começou a ser constrangedor o marido dormir tanto, justo num sábado de folga quando todos os vizinhos estavam em casa com suas famílias. - Antonio, chega de dormir! Seus filhos estão te esperando para passear. Daqui a pouco é noite e você aí dormindo, perdeu o dia todo! Ele nem se mexeu. Marieta então se aproximou do marido e cutucou seu braço, nada. Deu tapinha na cara, sacudiu o tronco e Antonio não esboçava nenhum tipo de reação. A essa altura os filhos e até o cachorro já estavam dentro do quarto chamando, beliscando, até água jogaram no rosto de Antonio, e nada. Depois de muita insistência e nenhuma reação Marieta sentou-se aos pés da cama e com a voz embargada proferiu o veredicto que ninguém queria ouvir: - Crianças, o pai de vocês está morto. Em pouco tempo a pequena casa estava tomada de vizinhos. Marieta, inconformada, recebia o conforto das vizinhas e todos procuravam uma explicação para uma sina tão triste, a morte repentina de um homem jovem, forte e saudável que gozava de ótima saúde no dia anterior. Os amigos da marcenaria fizeram questão de velar o corpo do colega e um deles, que era o melhor amigo de Antonio, resolveu ter com ele uma última prosa onde assegurou ao defunto que nada faltaria a sua família e que ninguém na vila se esqueceria do grande homem que ele havia sido. Prosa encerrada o amigo carinhosamente pôs a mão no rosto de Antonio: - Ué? Nunca vi morto que não fosse gelado... - chegou mais perto e pôs os dedos nas narinas de Antonio - nem que respirasse! Ele não está morto nada, gente! Um por um dos presentes do velório fizeram questão de colocar os dedos nas narinas de Antonio e constataram que de fato ele não podia estar morto. Agora se chorava era de alegria e foi mais ou menos nesse momento que chegou o dono da marcenaria, encharcado de suor, com um caixão enorme nas costas. Ele sozinho pousou-o num canto da sala e não conseguiu esconder o espanto com a euforia dos presentes. Marieta veio sorrindo e enxugando as lágrimas para receber o chefe do marido: - Marieta, ofereço a sua família um último conforto num momento tão difícil. Esse caixão é uma pequena retribuição a tantos anos de amizade e serviços prestados por seu marido. Que ele esteja em paz. Marieta agradeceu tentando assumir o tom que se espera de uma viúva no velório de seu próprio marido. - Muito obrigado Seu Juvenal mas acontece que acabamos de constatar que o Antonio não morreu, ele está apenas dormindo. O chefe arregalou os olhos e sorriu, sem saber direito como reagir a uma notícia tão inusitada: - Nossa, que benção...que susto que o Antonio nos deu, mas onde está o dorminhoco agora? - Ele ainda está dormindo. Aos poucos todos foram embora e no dia seguinte ate o médico do posto apareceu para ver o caso raro: - Morto posso dizer que ele não está mesmo, me parece estar dormindo normalmente. Sugiro que nada seja feito a não ser esperar. O caixão que ainda estava na sala foi levado para os fundos da casa e em pouco tempo já era o lugar preferido do cachorro pra dormir. As crianças também brincavam de navio dentro dele quando a mãe não estava por perto. A vida na vila e na própria casa aos poucos foi voltando ao normal. Nove dias se passaram e Antonio continuava a dormir seu sono profundo. - Parece que está sonhando, a expressão do rosto dele é serena - disse Marieta a uma vizinha em uma das muitas visitas que fazia ao quarto durante o dia para observar o marido dormindo. Ela e muitos vizinhos às vezes passavam por lá a fim de perceber se havia algum vestígio a ser descoberto, como se o sono de mais de uma semana que acometeu Antonio fosse uma charada pronta para ser desvendada a qualquer instante. Ele dormia tão tranqüilamente que sua expressão desencorajava qualquer iniciativa de acordá-lo, inibia qualquer tipo de preocupação, e assim os dias passaram permitindo sutilmente que ocorresse esse estranho hiato na vida da família. O caixão continuava nos fundos da casa e ninguém esperava usá-lo, mas ninguém, principalmente as crianças da vizinhança, esperavam que ele tivesse outro paradeiro. No décimo primeiro dia apareceu na porta da casa o dono da vendinha: - Sabe como é Dona Marieta, eu não queria incomodar, sei que o momento não é dos mais apropriados mas o Antonio havia deixado um pendura de umas cachacinhas lá no meu estabelecimento e como o mês está acabando peço para a senhora acertar. Marieta nem sabia que o marido bebia cachaça, mas acreditou no dono da vendinha, que já conhecia de longa data. Pagou na hora a suposta conta. Nessa mesma tarde foi com estranhamento que o carteiro trouxe um telegrama de um tal de Horácio endereçada a Antonio. Dada a situação Marieta não hesitou em abrir, a mensagem dizia: Antonio, Rosa aguarda dinheiro. Não fuja suas obrigações. Sabemos onde você mora. O que exatamente significa essa mensagem? Quem é Horácio, e quem é Rosa? Que dinheiro Antonio deve para Rosa? Não foi difícil constatar que Rosa muito provavelmente era uma mulher que Antonio sustentava. Marieta amassou o telegrama contra o peito e jurou matar o marido se ele ainda não estivesse morto. Entrou no quarto aos trancos e a expressão suave de Antonio dormindo agora lhe parecia uma provocação: - Miserável, miserável! Quando você acordar você vai ver! Só não te ponho na sarjeta agora mesmo por causa de seus filhos. As notícias correram a vila e em poucas horas todos já sabiam que Antonio, ao contrário do que sempre se pensou dele, gostava de cachaça e de mulher. Marieta já não sabia mais o que pensar do marido e nem chegou a se surpreender quando o vizinho da rua de baixo veio buscar o jumentinho que Antonio havia dito ter comprado para levar as crianças na escola e trazer a água. Sem pagamento, o jumento voltou para o antigo proprietário. Também não causou espanto a ninguém quando o vigário da paróquia veio cobrar a reforma do confessionário pela qual Antonio recebeu adiantado, mas nunca teve tempo para fazer. E o que dizer aos colegas de marcenaria que perguntavam a Marieta sobre o paradeiro do dinheiro confiado a Antonio para comprar uma serradeira nova na capital? Marieta sorriu ironicamente e mandou que eles fossem cobrar do morto que não morreu. Mais de quinze dias haviam se passado e Antonio continuava dormindo. Já se ouvia dizer à boca miúda que tinha gente querendo enterrá-lo mesmo respirando. O chefe de família respeitável e admirado por todos sustentava seu prestígio sabe-se lá a que preço ou há quanto tempo, mas, ao entrar em seu sono profundo, deixou vir à tona um Antonio que ninguém supunha existir. O dinheiro começou a faltar na casa de Marieta e também faltou quem se apresentasse para emprestar algum. Ela passava os dias inteiros lavando roupa de fora no tanque, só parava para atender um ou outro que tinha alguma dívida para cobrar de seu adormecido marido. Passou a anotar as requisições em pedacinhos de papel que jogava sobre o peito de Antonio. Em pouco tempo a cama mais parecia uma mesa de escritório. Tratou também de proibir as crianças e o cachorro das brincadeiras dentro do caixão porque esse se revelou um ótimo depósito para as roupas lavadas e passadas que agora se somavam em cada vez maiores quantidades. Nessa mesma semana quem foi bater na casa de Marieta foi a tal de Rosa, de mãos dadas com um garotinho engraçadinho que tinha todo o jeito de Antonio. Um dos filhinhos de Marieta já foi chegando no portão com lápis e papel na mão e, como se tornara de costume, orientou a mulher a escrever o nome e a dívida que o pai a procuraria assim que acordasse. - Antonio está dormindo faz quase duas semanas -- disse Marieta num misto de raiva e compaixão. - Mas como? Ele está morto? - perguntou Rosa relaxando a altivez com que tinha chegado na vila. - Morto ele não está, mas não se sabe quando ou mesmo se algum dias ele vai acordar. Pode deixar que eu mando ele te procurar caso isso um dia aconteça – disse secamente. No dia seguinte Marieta acordou para fazer o café da manhã, ao adentrar a cozinha encontrou a mesa posta e Antonio de costas no fogão fritando ovos. Ela pôs a mão na boca escancarada de surpresa e seus olhos marejaram de felicidade. Nem pode se mexer de tanta emoção e os filhos entraram na cozinha correndo e se abraçaram ao pai com tanta intensidade que a frigideira quase caiu do fogão e causou um acidente. - Mas o que foi que aconteceu nessa casa? Perguntou Antonio achando graça no carinho excessivo dos filhos - o que houve por aqui Marieta? A mulher que até agora nada tinha dito pensou o que iria responder ao marido. Tanta coisa havia acontecido enquanto ele dormia, tanta coisa ela passou a saber dele, que se fosse seguir a risca o que havia planejado para caso esse momento acontecesse, essa teria sido a última manhã que Antonio passaria naquela casa. Mas não era assim que seu coração sentia; as tantas vezes que ela viu em sua mente aquele re-encontro acontecer e tudo que ensaiou dizer a Antonio havia se esvaído porque Marieta só pensava em abraçar seu marido e celebrar com ele a vida que ele nem ao menos sabia o quanto esteve próxima de lhe escapar. E nessa história que parecia um pesadelo, que de tão irreal escapava aos toque do verrosímil, não custava muito a ela pensar que tudo que se sucedera no último mês tratava-se apenas de um sonho ruim. Por certo para a vila seria mais difícil perdoar as falhas de Antonio, mas em nome dos filhos e do amor que sentia por aquele homem, Marieta decidiu relevar. Percebeu-se também que o ímpeto de deixar a vida descabida do marido mentiroso para trás poderia passar e que ela mesma tinha grandes chances de mudar de idéia e deixar a realidade adentrar aquele mundo de sonho que insistia em perseguí-los caso não agisse logo. - Vamos Antonio, vamos! Arrume suas coisas, precisamos partir já dessa casa. Em poucos minutos Antonio e sua família deixavam a casa, antes mesmo de amanhecer, descendo a rua principal da vila caminhando e carregando tudo que conseguiram por dentro do caixão.


Bruno Medina é tecladista do Los Hermanos e autor do Instante Anterior

DE OLHOS BEM FECHADOS

Papai estava sorrindo pra mim com uma sacola daquelas antigas de comprar pão. Eu estava deitado na parte de baixo do beliche completamente molhado de suor. Ele me falou:
– Bora rapaz, deixa de preguiça e vai lá comprar o pão. Pode ficar com o troco. Só faltam 15 figurinhas, né?
Olhei pro relógio. Peraí...O rádio relógio que tinha sido queimado com as velas estava lá inteirinho marcando quinze pras cinco. E o quarto...As paredes cheias de forminhas de gesso, com desenhos de arco-íris, ursos e outros mimos. Minhas irmãs pequenas correndo pelo beco, pus o rosto na janela e ouvi aqueles gritos misturados a sorrisos incessantes, um banho de mangueira.
Como é possível? – Pensei alto comigo.
Minha mãe passou por mim como um reflexo, os cabelos mais longos que da última vez que a tinha visto.
– Pede dois pães brotes. Teu pai te deu o dinheiro do cigarro?
Eu corri pro espelho. Mas tava tudo bem, era eu mesmo.
Decidi ir pra rua conferir se estava tudo daquele jeito de novo. Vi o portão marrom manchado pela purpurina do carnaval. O sol estava descendo, mas era forte. Quando ia saindo, Isabel, a nossa empregada que havia vendido a filha para uma família americana de Portland, me perguntou: – Menino, tu não vai de bicicleta não? Olhei pra trás e ela lá estava sorrindo pra mim com aquele buço que eu achava tão feio. E continuava feio mesmo. Corri e peguei a bicicleta, há 13 anos que eu não preciso mais de bicicleta. E era a mesma bicicleta azul de raios brilhantes de zelo, a sela agora desconfortável e aquela velha novidade do guidão reto. A sacola na mão. Os olhos fixos em tudo que se passava no caminho. Um clima bom de lembrar e constatar. Estava tudo realmente do mesmo jeito, como foi, como tinha sido. Eu era a exceção. Eu não podia estar ali, não podia ser eu. Cheguei na padaria e aquele cheiro do trigo, de coisas deliciosas assadas naquele forno que eu nunca tinha visto. Pedi os pães, não esqueci dos brotes. E também não esqueci de pedir o cigarro Free com aquele filtro longsize. Sempre pedi aquilo e nunca entendi porque. Meus pais não gostavam. Mas eu também não. Odiava o fato dos dois fumarem. Pedia de propósito por pura excentricidade. Paguei. Recebi o troco.
Subi na bicicleta e voltei pra casa já ambientado. Pessoas me reconheceram no caminho. Soltei as duas mãos do guidão. Vento no rosto e a volta daquela sensação incomparável de desafio.
Fui chegando em casa, freando a bicicleta até parar em frente ao portão. Pus os olhos pra dentro da nossa velha casa. Vi de novo minhas irmãs correndo feito loucas, papai deitado no chão descansando das férias refrescantes da praia e ao fundo o som dos engenhos culinários que mamãe preparava. Tão bom. Tanta saudade que fechei os olhos.
Sabia que quando os abrisse de novo, nada daquilo existiria mais. Jamais imaginei que pudesse ver tanta coisa de olhos fechados.

4 de set de 2004

CSF11 EM ANÁLISE

O que deve mudar?
Depois de 7 postagens de textos temáticos que falaram desde os anos 80 até a preguiça, o CSF11 quer ouvir a opinião de quem passa por aqui pra curtir os textos.
Vou parar as postagens durante alguns dias para cuidar da reformulação visual do Blog e enquanto isso...quero ouvir críticas...muitas...

Meus textos devem ser menores neh?
Devo convidar mais pessoas?
Os temas devem continuar...ou abro espaço pra textos de qualquer natureza com tema livre.
Usem o comments e desçam a lenha. Tou aqui pra escutar e ler :)

28 de ago de 2004

BRUNA E DOMENICO E AS TEORIAS DO DESEJO À PREGUIÇA

As olheiras denunciavam um sono comprometido.
Pela casa, multiplicavam-se aromas e fotografias artísticas da Bruna.
A mulher de Domenico era constrangedoramente bonita. Muito corpo. Puro carisma.
Difícil não perder a concentração do problema do amigo.
– Guuuuto, acorda cara!!!
Olhei com aquela cara de comiseração. Domenico chorava compulsivamente. Um choro transbordante, daqueles que a gente tenta intercalar, balbuciando algumas palavras.
Entre soluços, me explicou que Bruna tinha ido embora.
Perguntei porque e ele não quis me dizer. Entrando pelo quarto, lágrimas deixando uma poça em sua camisa, percebi que o cenário de abandono era mesmo evidente.
Ele continuou calado, só as contrações falavam. Depois de algum tempo é que começou a me contar como tinha conhecido a Bruna.

Ela surfista, corada de praia, cabelos dourados de parafina e pele ressecada de sol. Ele de óculos no rosto e pouco papo.
– Pancadão de boate já viu né?
Domenico já conseguia sobrepor um sorriso no rosto oleoso de tanto choro. Já punha os olhos para cima, procurando as melhores lembranças. Lembrou do primeiro grande encontro. Me dizia que as palavras que não conseguia dizer, as pupilas se encarregavam de dilatar o sentido. Palavras e olhares ácidos. Muito ácido e em pouco tempo, um gozo rápido consumou uma relação intensa.
Em 3 meses se casaram, montaram apartamento. Ele arrumou emprego como vendedor numa livraria, eram 10 horas de trabalho todo dia. Bom para deixar mais quente a relação recém-formada.
Bruna não trabalhava, estudava direito na USP. Mas era, mesmo sem trabalhar, o antagonismo daquelas patricinhas filhas-de-papai-que-só-estudam. O cheiro forte de fungos de biblioteca e alguns daqueles tijolaços ainda espalhados pela casa comprovavam que ela levava realmente a sério sua formação.

Depois de pouco mais 8 meses de trabalho duro, Domenico conseguiu antecipar suas férias. Ele era especial no trato com as pessoas, no caso específico, seu gerente facilitou tudo. Difícil mesmo foi entender porque seu casamento começou a ruir a partir daquilo que devia ser o ápice de uma história de amor.

– Guto... Não dá pra entender porque ela desistiu da nossa vida, pra viver... Pra viver daquele jeito.

Nos primeiros dias, foi tudo bem: muito carinho, café da manhã na cama e aquele amor testosterônico no começo do dia. Aos poucos, menos de duas semanas, Bruna passou a questionar porque Domenico decidira tirar férias antecipadas. Afinal ele era novo no emprego e por mais que contasse com a simpatia dos clientes e de seu chefe, não poderia abusar tanto assim só por um capricho. Ela insistiu para que Domenico voltasse das férias forçadas. Mas a bronca de Bruna não o demoveu. Havia muito desejo por trás da idéia.

– Por favor, Domenico! Eu odeio gente preguiçosa. Acorda, pelo amor de Deus.

E passou a ser assim todos os dias. Muita briga, pouca atenção dividida.
Bruna saia à tarde e só chegava depois da faculdade, equilibrando os livros empilhados e demonstrando uma indiferença terrível aos carinhos de Domenico.
Muitas vezes em vão acordava, porque o espaço na cama já estava vazio.
Foi assim até que ele resolveu se esforçar para agradá-la de verdade. Acordou cedo e saiu para caminhar, na volta a encontrou pronta para sair.
Bruna sorriu e disse:

– Gostei de ver. Vou resolver umas coisas da faculdade na casa da Lu e depois volto.
– Mas agora pela manhã? – perguntou curioso.
– É. Um trabalho, Domenico. Trabalho exige dedicação, entendeu?

O apartamento do casal ficou para trás. Descemos a Rua Augusta e eu já estava com medo. Rodamos no meu carro durante uma meia hora até chegar num flat.
Ele me pediu pra entrar na frente. No hall cruzei com alguns caras de gravata, havia também funcionários do flat terminando uma faxina. Entramos no elevador e Domenico só abriu a boca para dizer o número do andar. Mãos no bolso e olhos para cima, não para lembrar de coisas boas, só para conferir os andares que iam passando. A porta abriu. Mais um cara, dessa vez mais velho do que os que estavam no hall, passou por nós com um sorriso no canto do rosto. Domenico insistiu para que eu fosse na frente. Fui me aproximando da porta 707. Estava entreaberta e eu fiquei com vergonha. Domenico fez aqueles gestos rápidos com as mãos espalmadas como se me empurrasse imaginariamente para dentro do mini-apartamento. Entrei. Lingerie pelo chão, os mesmos aromas do apartamento de Domenico e uma explosão ensurdecedora logo após o meu espanto.

– Meu Deus!!! Já que tirastes minhas forças, por favor, acaba com o meu desejo.

A história de Bruna e Domenico acabou sem ao menos ter começado. Quando cheguei junto ao seu corpo, entendi porque ele se manteve o tempo todo com as mãos no bolso. Junto à mão esquerda, um bilhete boiava leve numa poça de sangue. Era bem menos pesado que seu conteúdo, um pedido de socorro, um clamor.
Já no velório, traje de viúva sobre o belo corpo, Bruna me chamou a atenção pela tranqüilidade. Atravessei o monte de pessoas que nos separavam, me pus ao seu lado e não me contive.

– Você matou o Domenico. – Sussurrei no seu ouvido.
– Você sabe que não. Domenico morreu porque tinha preguiça de sofrer.
– Como você pode dizer uma coisa dessas?
– Guto, por favor, me poupe. Domenico sempre foi um acomodado. E assim foi em tudo na vida dele, inclusive no nosso casamento.
– Francamente...Não entendo como você ainda se acha no direito de dar lição de moral sobre preguiça.
– Guto...Faça o que achar melhor. Mas, por favor, me deixe em paz.

Feito do desejo a vítima, meu amigo se foi porque cometeu um pecado capital: se apaixonou.

13 de ago de 2004

DIA SIM, NOITE NÃO

Preguiça.
Até de dizer...
Pregui...
Pergunta tola aquela que tu proferes...
“- Cansada de quê?”.
- De protagonizar minha vida, oras!
- De ter um compromisso ridículo com a depilação!
- De levantar involuntariamente as sobrancelhas!... E me espantar com as atrocidades que dizes do sentido metafórico de “estar por cima”.
Tu bem sabes do capricornianismo que me acomete. E que não uso o meu latim com essas efemeridades.
Ah... Por hoje não me negaceie com os discursos longínquos sobre o dia. Apenas quero deleitar-me – deixe - do sentimento do mundo.
E...
Hum...
Faça-me o favor de me tirar as meias...
De me despir inteira.
De beijar-me as orelhas e a nuca.
E dizer palavras doces.
Faça-me uma massagem nas costas.
Não faça menção aos meus olhos fechados.
E de vez em quando aperte-me contra o peito. De vez em quando só.
Deixa dizer...

"- Hoje me faz amor, José.”

Elisa Araújo é funcionária pública, estudante de Letras e Música

6 de ago de 2004

O REINO DA ALEGRIA

“Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso senhor” Mt 24.42.

– Por que caçoas de mim? Nunca foste cínico.
– Eu é que não entendo por que depois de tanto tempo, você ainda insiste em querer pregar pra...
– Prego sim. Minha vida é a pregação da palavra, você sabe disso. Prego, prego, prego...Até quando puder e quiser.
– Não se exalte, tá. Você não precisa repetir essa ladainha. Esse papo de prego-prego-prego funcionou há muito tempo atrás com outra pessoa, não comigo.
– Pelo amor de Deus, não blasfeme nem seja irônico.
– Peraí. Você vem aqui no meu trabalho a esta hora da noite, chorando e questionando os seus próprios princípios e depois vem me acusar de ser irônico.
– Toni, não preciso lembrar que sou sua namorada né? Achei que você podia me ajudar.
– A gente está tão diferente um com o outro, desde que você arrumou este emprego.
– Espera...Por favor, o que há de ruim em fazer o que faço?
– Você está iludindo as pessoas. - a namorada de Toni soluçava, e tinha o rosto corado, quente com aquelas lágrimas de raiva.
– Vamos parar. Não adianta. Que porra é essa? Quer dizer que eu, um simples operário, agora sou enviado da mentira?
– Ósteas, Toni. Você sabe o que são ósteas. Apesar de fazer pose de cético, você sabe que isto é uma ilusão.
– Ilusão? Eu tenho o corpo de Jesus em minhas mãos toda noite.
– Você está louco.
– Sinceramente...O que você veio fazer aqui?
– Queria lhe ver. Estou com medo de estar perdendo a fé e estava a procura de um pouco de atenção. - Toni olhou por cima dos óculos e começou a cantar.
“Deixe-se acreditar, nada vai acontecer. Tudo pode ser, nada vai acontecer. Não tema que este é o Reino da Alegria”.
Toni começou a rodar pela sala, sorrindo bastante. Sorria tanto que já chorava com as mãos controlando as contrações do abdôme. Ele foi parando de sorrir até se encostar numa pilha de ósteas, esperando para serem separadas. Lia com o olhar embaçado pela temperatura das lágrimas, olhava pra aquilo com tristeza, balançando a cabeça negativamente.
– Toni, no que você se transformou? - Lia perguntava, enquanto seu namorado assoava o nariz irritado, por causa do choro, num pedaço de óstea.
– Lia...Odeio transformações. Adoro vinho e não gosto de truques.
– Você não respeita nada. Acho que perdi meu tempo vindo aqui.
– Saiba que o corpo de Jesus já foi meu companheiro em momentos de solidão aqui na fábrica. Posso afirmar que o corpo de Jesus serve mesmo para limpar a gente. Sabe como é?! A gente se vira como pode quando está sozinho.
– Você está louco.
– Não me procure nunca mais. Não tenho paciência para estes seus sermões.
Lia saiu em prantos, passou pelos corredores e quase escorregou nas poças de óleo que servem para lubrificar as máquinas da fábrica. Saiu da fábrica e sentiu as gotas de chuva aliviarem a temperatura febril de seu rosto. Aproximava-se lentamente, chorando um pouco mais alto por causa da chuva e da aparente solidão da madrugada, do portão de saída, quando começou a ouvir passos – vacilavam aqueles passos, pareciam vários, mas ela só enxergava uma sombra. Apressou-se e mergulhou naquele misto de medo e curiosidade de querer olhar pra trás. Até que criou coragem e virou de costas para se ofuscar com a luz forte da lanterna de um homem alto, que mancava, tinha feições grosseiras e conduzia um cão negro. Ele olhou fixo nos olhos molhados de Lia e sentenciou:
– Você não sabe se quer sair?
– Você não sabe o que é estar só.

3 de ago de 2004

CULTO NO 401

Cinza, era a cor daquela manhã.
E eu lá, no interior da condução, em pé, segurando o apoio de metal, frio. Nada muito anormal. Alguns decotes, alguns olhares, alguns bocejos, e lá fora o mundo molhado. É engraçado como as pessoas gritam por dentro, gritos desesperados, silenciosos, secos, vez por outra dá para ouvi-los pelas frestas dos olhos, olhos quase sempre tristes.
Diferente dos olhos do cego pedinte, figura interessante. Subiu na parada do supermercado. Tateando os passageiros, ia apanhando as moedas que alguns poucos generosos lhe entregavam. Uma a uma. Órbitas vazias, mas ainda assim um olhar risonho, típico dos cegos. Enquanto agradecia a todos, anunciava que bebera muito no tempo em que era mais moço, mas havia mudado, transformou-se num homem melhor, consciente, maduro, e aquele dinheiro iria lhe proporcionar um bom café da manhã.
- ALELUIA.
Alguém gritou.
-AMÉM SENHOR.
Mais um grito.
Pra complementar, um senhor alinhado no banco da frente do ônibus pregou:
- Quando o céu se abrir e o salvador voltar em cima de uma nuvem iluminada, assim como está escrito no livro sagrado, ele o levará para o reino de Deus, pois lá é o lugar dos justos e dos pobres.
Aleluias e améns soaram vibrantes pelos quatro cantos do veículo. (Curiosa manifestação).
Sutilmente um velho que estava no banco de trás do ônibus, falou para o cego com a inteligência e a lucidez dos conformados:
- Receba teus trocados e siga em paz meu velho. Poupe os ouvidos, tu não vê que já passou da hora dele voltar? Quando você partir desta para melhor, enxergarás a verdade.
Falou com um riso interrompido no lado esquerdo da boca e voltou ao seu silêncio.
- ESTÁS AMARRADO EM NOME DE JESUS.
O homem alinhado gritou abruptamente, já ereto com as veias pulando da garganta e olhos de ira.
- És instrumento de satanás e estás tentando ludibriar este pobre coitado...
(Iniciou-se uma ávida e longa pregação)...Saiba que Deus mandou seu filho para salvar-nos dos nossos próprios pecados, ele morreu por nós e prometeu voltar, tenha certeza que este dia está próximo, se arrependa do que falou, homem sem fé, e serás salvo...
(Olhos cerrados, murmúrios, gritos breves, mãos dadas)... Não queiras sentir a ira de Deus, pois Deus não é só amável, Deus também é fogo, o fogo divino... (Minutos correndo, crianças confusas, respingos de chuva pelas brechas das janelas)...Quem aceitar a Jesus, seguirá com ele para o reino dos céus, onde as estradas são de ouro e as paredes de diamante e... (POU).

Súbito silêncio.

O velho do banco de trás levantou calmamente, guardou o 38 de onde saiu um único e certeiro tiro em direção a testa daquele senhor histérico no outro extremo da lotação, pôs o jornal embaixo do braço, pagou a passagem e desceu juntamente com o pobre velho cego.
Me vi no inferno em meio a gritaria e o desespero coletivo sufocando a paz daquela manhã, o céu cinza do outro lado da janela foi se abrindo, alguns raios de luz surgiam em meio as nuvens pesadas, confesso que lembrei da tal nuvem iluminada, intimamente um suspense, uma espera....
Logo a imagem do pobre cego no fiteiro ao lado da parada, jogando um pouco de cachaça pro santo antes do ríspido gole, me fez enxergar o sol.


J.Falcão é músico e diretor de arte.


27 de jul de 2004

LIBERTAS QUAE SERA TAMEN

Ele aguardava a chuva passar, já eram nove e nada de ninguém dormir. Pelas frestas do lençol, dava para ver o mexe-remexe de um sono ensaiado. Nossa avó, irritada, havia decretado toque de recolher logo na semi-final, e tinha o Maradona, tinha Maracanã. Meus olhos já estavam pesados, não tinha ensaiado. Os pingos da chuva no telhado de zinco do beco eram a cortina de fumaça perfeita, e ele já tinha saído. Me levantei, segui devagar pela sala, driblando os móveis um a um, já com o gostinho de gritar junto o gol. Pus a mão na maçaneta, fria, quase dava choque. A porta abriu devagar e o vento frio me arrepiou. Ela nem falou nada, perto de ficar livre eu me prendi. A respiração parou e aquele frio subiu pela barriga, em segundos. Ele não precisou improvisar, eu precisei. Enquanto a chuva caia, e a bola do Maradona, do meio campo, explodia no travessão; eu na frente da vovó, fingia uma preguiça sonâmbula.
De manhã cedo, a gente tava acordado, prontos pra ir pra escola. Ele tinha um sorriso no rosto que denunciava uma alegria desmedida, enquanto eu não via a hora de ouví-lo. Era inveja e ansiedade. Ele me contou tudo, com todos os detalhes que não davam pra ver pelas frestas do lençol.
Desde aquele dia, tive certeza de que ser livre não é para qualquer um. É preciso ter vocação para a liberdade. Um dia quase morri porque tentei seguir de novo os passos dele. Da areia via o jeito como ele mergulhava de cabeça na água, parecia tão fácil. Fui lá tentar porque ainda  não tinha percebido que aquela era a metáfora da vida dele. Eu engoli muita água mas consegui sobreviver. Ele, depois de muito tempo, alguns filhos e muitas mulheres depois de nossa história, morreu afogado. Sentiu-se mal e foi mergulhar, provavelmente de cabeça, de maneira intensa, como sempre fez quando queria se sentir livre.

26 de jul de 2004

VERSOS INQUIETOS

Seus olhos me olham cada vez mais perto
E com o tempo com os meus se confundem
Fazendo oásis o que antes era só deserto.

Estamos vivos!
Sinto seu cheiro, o gosto da sua pele,
E todos os seus pensamentos lascivos
Mesmo que não me reveles.

As respirações confundidas
As palavras indecentes
Os gestos sem medidas.

E nesse jeito de te ter com loucura
Sem compostura; de maneira voraz
Cada vez que me pedes um beijo com doçura
Cravo meus dentes no teu corpo e te mordo ainda mais.

Doce é a dor da mordida
Sente prazer a alma, mesmo com a carne ferida
E somos tomados por uma febre
Que, apesar de às vezes breve,
É a melhor coisa da vida.

Me faz livre, me faz leve, me faz viva
Que esse desejo em mim não cessa
A vontade é grande; curta é a vida
E quando meu desejo "termina", vem o teu e começa.

Vem o gozo, e depressa me recomponho
Vem o tesão querendo recomeçar
E, perdoem-me se as palavras que disponho
Não conseguem a sensação de liberdade expressar.

Raquel Medeiros é Redatora e Estudante de Publicidade e Propaganda no IESP


19 de jul de 2004

OPERAÇÃO TAPA -TUDO

Tome-se buraco por ausência; vácuo; vazio; lacuna. Mais que cavidade, aqui os buracos são o sinal mais latente de abandono.
A cidade anda atolada num buraco tão profundo que parece impossível medir. Até porque, há tempos que um lento e gradual processo de letargia nos acomete. Covas também são buracos. E à medida que cresce nossa insensibilidade, um tom apocalíptico ajuda a constatar que realmente, há um buraco para cada um de nós. Sem saber o que fazer, a cidade assiste impassível a metástase dos buracos, desenganada pelas autoridades. A culpa, fácil constatar, é da chuva. Precipitada por natureza, ela causou todos os males e, pior, evitou que se aplicasse logo o remédio para a cura das mazelas. Fez de vítima todos nós aqui, lá no interior, mais perto do que a gente podia imaginar. Precipitação combinada com falha na fundação, lá no começo, na raiz do problema. E mais um buraco preencheu de vazio a existência de milhares. Manchete de primeira do Jornal Nacional, a precipitação, a falha, o buraco e a tragédia fizeram parte da programação durante alguns dias. O poder público no Brasil sempre soube da importância de audiências para a resolução dos problemas, aqui, no nosso interior, não foi diferente. Nem seria diferente na nossa tragédia cotidiana. Havia, antes de tudo acontecer, um plano de ação ostensiva contra a proliferação dos buracos nas principáis vias da cidade. Era a sonora e popular, Operação Tapa-Tudo que, por causa das chuvas, não pôde ser iniciada. Ainda bem. Houve tempo para percebermos que buracos maiores estavam nas nossas caras, casas e escolas. Em horário nobre, uma estatística pobre, demonstrava por A+B que nossas crianças e escolas tinham falhas terríveis, falhas na fundação, um buraco na aprendizagem, falhas na raiz de uma tragédia maior. Pior que qualquer buraco é a ausência. É a constatação de que nós estamos na “lanterna de um futuro que virá”. Pior é saber que a Operação Tapa-Tudo, está dando muito certo, antes mesmo de começar.
 
EXTRA
 
Existe uma coisa interessante que lembrei assim que soube que escreveria sobre buracos. Senão todo mundo, muitos sabem que a Globo, em geral, sempre deixa “deixas”, anunciando as trilhas sonoras de suas novelas. Assim, se formou uma geração de pessoas que decoravam sempre partes de canções de muito sucesso. É o que a gente pode nomear, aqui na brincadeira, de One Part Hit. Essas “deixas” servem para tapar os buracos proporcionados pelos espaços comerciais e as chamadas dos programas.
 

16 de jul de 2004

SEXO CASUAL, ORGASMO VIRTUAL

Até parece que tem que dar duas para a coisa pegar.
Ou então imaginar que a luz acabou, foi para eu me concentrar melhor.
Ou fingir que me concentrava ali e partir para uma nova dimensão.
Você pegou na minha mão, me puxou para cantos ainda mais escuros e eu fui.
Mas te digo, e peço perdão, eu não estava.
Daí ao fim, perdi-me na conclusão de tudo.
Você sentiu?
Me diz, você sentiu?
Tudo bem, não vá se envergonhar.
Amar não é para qualquer um.

 

Marília Valengo é Redatora de Publicidade


8 de jul de 2004

MEDO DE SHOPPING

Um dia antes, saí suando frio por causa da claustrofobia. Palavras, apenas com os funcionários do motel em que estava instalado. Nunca um hóspede de motel fizera tão pouca questão de privacidade e discrição quanto eu. Comecei pedindo um hambúrguer, não porque estava com fome, e sim porque senti falta de falar com alguém. Saí cedinho do motel e me certifiquei de que não esqueceria de nada que pudesse me atrapalhar durante o dia. Dinheiro, remédio para dor de cabeça, walk-man tocando Razorblade Suitecase* e um sorriso no rosto pronto para amenizar minha angústia. Rodei. Tudo andou em círculos. Vi mulheres lindas, crianças chorando nos brinquedos de plástico bio-degradável, hastes de madeira rodando em fios de açucar, e as músicas no random, no repeat...
O belo violino nos acordes das canções do Razorblade marcou o dia como uma cicatriz de um ferimento profundo. Chorei muito ao ver que podia morrer ali rodando naquele shopping tão tranqüilo. Provavelmente ninguém verteria lágrimas por um desconhecido. Chorava no banheiro, porque não queria que as pessoas me vissem. Mas sempre deixava lágrimas num canto de olho. A gente sempre acha que as pessoas têm interesse espontâneo por nós. Esperava mesmo que alguém olhasse exatamente naquele canto do olho, que continha só um pouco do que me sobrava. Era medo. Comecei a me perguntar porque estava ali. Estava ficando escuro, a cidade era grande, e eu passava por becos ainda mais assustadores que os sentimentos autodestrutivos que sentia.
Estava só. Poderia fazer o que quisesse. Poderia desistir de tudo e voltar. Por que insistir em continuar passando despercebido? Sabia que era importante continuar, mas estava doendo muito a solidão. Na verdade, tinha medo de assumir uma tarefa que nunca tinha cumprido. Sempre fui centro, nunca tinha sido periferia. Naqueles momentos, eu estava esquecido. Notei que tinha medo de ficar só , de morrer só.
Mesmo sofrendo e chorando, decidi que só sairia de lá quando terminasse o que tinha de fazer. Os soluços continuavam, as lágrimas haviam untado as maçãs do meu rosto com um óleo que cintilava à medida que passava pelas placas e vitrines iluminadas. Deu para compreender perfeitamente o significado de walkman, o enjôo foi latente e aos poucos pude ouvir acordes descompassados, uma voz desafinada que de certa forma acalmou meus pensamentos. Segui o som, mas desvendei a ilusão antes das miragens. Fiquei de longe observando o caos sonoro daquele shopping, me convencendo de que seria impossivel para alguém conseguir ser ouvido com a atenção necessária, mesmo rosto a rosto, quanto mais à distância e intermediado por uma aparelhagem tão sofrível quanto a acústica malfeita daquela construção. Sucessos do rádio se intercalavam enquanto tentava decifrar as letras de cada canção entoada pelo músico. Pensava: “O que será que esse cara deve pensar de cantar nesse barulho todo? Se eu fosse esse bicho, não pagava esse mico.” De repente notei que havia algo mais incômodo que o barulho ensurdecedor do cotidiano climatizado daquela praça de alimentação. O tal músico errava sempre algumas estrofes das músicas, e o erro era insistente. Será que só eu notava?
Quase tomei nota do erros... Aquilo estava realmente me atormentando. De uma hora pra outra esqueci do sofrimento daquele dia e passei a me perguntar o que fazia um cara como aquele, cantar numa merda barulhenta daquelas e nem se dignar a lembrar das letras. Passei a me aproximar mais rapidamente do tal cantor. O fim da apresentação estava próximo. Não havia possibilidade de bis. Ninguém prestara tanta atenção assim. Procurei o canto de olho, o mesmo untado das maças, entretanto enxerguei mais naquele homem baixo e levemente calvo, que se aproximou de mim e perguntou:
– Pois não. Algum problema?
Haviam muitos, mas algumas perguntas não se respondem. Calei e, logo em seguida, perguntei:
– Você canta aqui há muito tempo?
Ele me olhou, no canto do olhar não tinha nada. Nas maças, nenhum sinal de sofrimento. O sorriso enganou mais que sua resposta.
– Hoje é meu último dia. Não se preocupe.
O homem saiu. Violão nas costas e passos firmes, sequer olhou para trás.
Mirei-me em seu exemplo e me arrisquei nos becos daquela cidade fedorenta até chegar no motel. Deitei cedo, dispensei o hamburguer com o tempero emocional e sonhei com o dia em que iria embora dali.
Acordei cedo demais para um banho, mas tarde para o café grátis. Fechei minha conta e pus as mãos na bagagem que agora parecia bem mais pesada. Sentado numa cama redonda de motel, cansado de rodar em busca de algo que justificasse tanta solidão, eu abri o jornal do dia e comecei a especular até quando agüentaria. Primeiro na página de esportes (aí muita gente foi preterida), depois conferi o sangue anônimo que corre nas páginas policiais. Lá, nas últimas colunas, uma foto em tons de cinza, e um título popularesco, me chocou.

Corda de violão vira forca para músico na Bela Vista

A foto era daquele homem. O mesmo idiota que errava a letra das músicas.
Naquela hora entendi o porquê do sorriso dele. Ficou claro que ele errava para tentar atrair a atenção das pessoas. Percebi a minha idiotice. Na verdade não havia enxergado nada. Os acordes desafinados e as letras erradas eram o canto de olho, a maçã untada daquele cara.
Olhei demais pra mim para tentar decifrar porque tanto medo. Na odisséia circular por aquele shopping, me deixei levar pela tola apreciação de que o mundo girava ao meu redor.
Ignorei a verdade incontestável de que o medo mede nossos limites.


*Razorblade Suitecase (1996) é o segundo álbum da Banda de Rock Britânica Bush

PÁSSAROS

Me peguei pensando sobre o medo. Talvez eu tenha até medo de sentir medo. Imagina só! Que coisa. Mas comecei a pensar nesse sentimento ao ver os pássaros. Ninguém chega perto dos pássaros. Ninguém. Só eles mesmos. E porque que existe esse "bate asas" todo pra longe da gente? E como explicar os pombos? "Ah! Os pombos são bobos, não ligam.", vai dizer aquele homem no canto da sala. Não! Eles ligam, mas só fogem quando realmente sentem que ali vem merda. Ninguém pega um pombo. "E as galinhas, otário?", indaga o burronildo ignorante do outro lado da sala. Galinha não é pássaro. É ave, mas não é pássaro. Ah! Mas que coisa, eu num tou aqui pra explicar o que é pássaro. Tou aqui pra falar de medo. E admito ter medo de falar disso. Pois o medo é, para mim, o sentimento mais incrível de todos. "Até o amor perde pra ele?", pergunta aquela infanto-pornô-juvenil cheia de espinhas na cara numa das primeiras cadeiras. O amor existe para quem não tem medo dele.

Sou um pássaro. Aliás, todos somos. Mas prefiro enquadrarmos na qualificação de pombos. Pois pombos não saem por aí fugindo de todo mundo. Pois o medo de ser tocado é enorme naqueles que não se entregam na vida. E pombo que se entrega, pra mim, é pombo morto. Ironia, não? Passarinho que come pedra, sabe o cu que tem. Pois é, não vá sair por aí se entregando pra todo mundo, Justafá! Pera aí. Eu tou saindo do tema novamente. Eu tenho que falar de medo. Mas admito: tenho medo de falar do medo. E por isso eu fujo, eu grito, eu birro, eu choro, eu tremo, eu mostro língua, eu canto, eu assobio, eu faço besteira, eu me escondo, eu fico com medo. Afinal, eu sou um pássaro, mas não posso voar. E finalmente, aquele burronildo ignorante do outro lado da sala grita: "Então você é uma galinha, idiota!!!"


João Faissal é ator, webdesigner, diretor de arte e estudante de Educação Artística

2 de jul de 2004

EGOLATRIA

Autoria
Auto-estima
Auto-ajuda
Autografia

Autofagia
Autofelatio
Auto-imagem
Autoparasitia

Autonomia
Auto-suficiência
Autoridade
Autocracia

Autologia
Autopiedade
Auto-indulgência
Astrologia

Automatia
Auto-exílio
Autocídio
Autópsia

Autolatria
Auto
Alterego
Egolatria

Alex Camilo é poeta, estudante de jornalismo e redator de publicidade.

29 de jun de 2004

O EGOÍSMO POR MIM MESMO

EGO s.m. Psic. Personalidade do indivíduo definida como um equilíbrio entre as tendências elementares (o “id”) e a censura social interiorizada pelo indivíduo (o “superego”).

EU acatei a sugestão de uma amiga MINHA, e postarei sobre o Egoísmo.
A primeira coisa que EU fiz, como de resto sempre faço, foi pesquisar no dicionário a origem e o significado da palavra.
ME deparei com duas definições: uma filosófica e outra psicanalítica.
A filosófica é simples e atribui ao Ego, o significado de “unidade” à alma humana.
A psicanalítica explica o significado retirando o termo do isolamento e o conectando a mais dois conceitos, dos quais EU ainda não manjo muito, mas que estão descritos aí em cima.
EU tenho uma definição própria, só MINHA, sobre o que é ser egoísta. Lógico que posso compartilhá-la com vocês, afinal este é um espaço criado por MIM, não correria o risco de ser mal interpretado.
No mundo contemporâneo, ser egoísta é aderir à paz. É ficar impassível. É não esquentar, nem estar frio demais. Não é o sólido, nem o liquido, muito menos o gasoso. É o plasma.
O egoísta hoje é aquele que quer a paz que o Yuka não quis.
EU, como Redator de Publicidade, lido todos os dias com os EGOS. Mas nem ME acho tão egoísta.
Agora que pesquisei sobre o assunto, e vou postar um texto cheio de versos sobre MIM mesmo, sei que EU sou no máximo um Egotista, egoísta jamais.


(N)ÉGO

Négo o apego
Porque renego meu ego
Prefiro o sossego
No momento que me entrego

Em geral não me atrevo.
Porque renego meu ego
Mas não gosto do arrego.

À primeira pessoa relego
Só aquilo que cabe emprego
Porque renego meu ego
E me négo ao apego

Na alegria que carrego
Há doses de gozo e desespero
Porque renego meu ego
Fecho os olhos pro desprezo


21 de jun de 2004

PELA HONRA DE GREYSKULL

Era do alto do Chevette SL do meu pai que eu vi a minha infância passar. E se você quiser algo mais anos 80 ainda, antes dele, havia um Corcel. Era um Corcel creme, assim como o Chevette, que só reforçava a proposta daqueles tempos. Daí eu te pergunto: qual era a proposta daqueles tempos? Pelo menos pra nós, crianças naquela época, a proposta era assistir ao sorteio do Xou da Xuxa every day...
“E se você quiser participar do nosso sorteio é só escrever para rua Saturnino de Brito, 74, Jardim Botânico, Rio de Janeiro. O Cep é 22470. Moderninhooooo”. Eu tinha que falar que ainda lembro disso. Eu e minhas irmãs fazíamos cartinhas, muitas delas, e brincávamos de sorteio na garagem da nossa casa. Outro dia conversando com uma amiga do trabalho, descobri que ela também fazia a mesma coisa. Não posso falar pelo universo dos meninos. Mas é facinho que eles tivessem uma espada do He-man ou bonecos do DI Joe. (Até eu tinha!) Do que será que as crianças brincam hoje? Eu vejo meu filho reproduzir todos os gritos de guerra de desenhos que horrorizam os pais pelas doses de violência que propõem. Mas o horror da gente no fundo é pura nostalgia. Talvez toda época tenha a dose de violência que mereça. Já pararam pra pensar nisso? Eu já. Tudo era sempre mais bonito na nossa época. E não há melhor nem pior, só há a diferença do tempo. E assumindo isso, eu posso prosseguir mais tranqüila. Eu corri de bunda-rica pela casa, usei saia balonê, ouvi os LPS da minha mãe e quis ser como a Cláudia Ohana na novela Rainha da Sucata. Ta tudo bem, já era 1990. Mas a década ainda estava lá impregnada. Assim como todos os desejos que nós tínhamos naquela época. Quem nunca imaginou a distância da idade? “Nossa quando eu tiver 21 anos eu já vou estar ...”. Era longe não é mesmo? Chegou tão rápido... E essa vontade louca de sempre voltar à nossa juventude ou a nossa infância quando tudo parece sem sentido. Há todo sentido do mundo nesse eterno retorno. À medida que o tempo passa, a gente se esquece e se afasta do que quer realmente. Por isso, vocês ainda irão assistir ao retorno dos anos 90, dos anos 2000, 2010... 2015. Porque enquanto houver quem envelheça, vai haver cansaço, nostalgia e saudade. E se você não está entendendo nada do que eu digo, faça o seguinte: ouça Boys don´t cry do The Cure num sábado à tarde e depois volte aqui pra dizer... não parecia que você ia conquistar o que quisesse? Eu achava que sim. E pra falar a verdade, quando ouço, ainda acho que posso. E é por isso que a gente volta. Pra entender que a gente sempre pode, independente do tempo que for.

Julliana Veloso Machado
É jornalista, redatora de publicidade e produtora de TV
Atualmente faz especialização em Marketing e Publicidade no IESP

SAVE FERRIS

Um amigo, redator de publicidade, vem desenvolvendo uma tese (de botequim) a respeito da volta por cima dos anos 80.
O minimalismo do rock oitentista, os Strokes, a moda das linhas heritage/vintage de todas as marcas e até coisas como o glam rock parece que estão dando certo, vide o caso de uma banda e suas calças de couro que vi na MTV dia desses, chamada The Darkness.
Meu amigo diz que aquela geração, pré-adolescente em 80, agora move a nossa economia. Quer dizer que meninas e meninos que viveram sob o jugo dos coques e basqueteiras, hoje têm o poder nas mãos. Esse pessoal impulsiona o pensamento retrô, da lembraça do supertrunfo, do Banco Imobiliário, do recorde de vendas de qualquer coletânea da Legião Urbana, da Malu Máder nas páginas da Fama, do filme sobre o Cazuza.
Tudo que remete aos anos 80 tem muitas chances de dar certo porque os jovens de 80, hoje têm carteiras de couro recheadas de poder de compra, e é real, com todos os zeros no lugar, sem gatilho e inflação.
Aceitando a tese de meu amigo, e a despeito do alívio irresistível provocado pela nostalgia, é doloroso admitir que hoje os tempos são outros. A euforia do retorno ao tempo da Vovó Mafalda pára no relógio, pontualmente às 5h e 60, quando a gente vê que os anos 80 voltam como quaisquer outros “anos”. A estética volta, a moda volta, a música volta, o cinema se interessa e volta, as emoções também voltam, mas os tempos não voltam de verdade.
Négo sem renegar, o tempo e a poesia do Cazuza. Hoje, dá pra dizer que nossos ídolos não morreram de overdose, boa parte deles morreu de Aids como ele ou então se espatifaram em um monte de concreto. Nossos companheiros estão no poder e ideologia anda meio de modé,deixou de ser essencial pra viver.