26 de fev de 2014

Ratos e urubus, larguem minha fantasia.


"Qual areia na farofa
É o luxo e a pobreza"

“O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual.” A antológica frase do carnavalesco maranhense Joãosinho Trinta ajuda a compreender o país em que vivemos. Um país tão rico e diverso quanto pobre e desigual. 


O carnaval nunca foi tão necessário quanto em 2014. Mas há 25 anos, quando comemorávamos o centenário da república, um desfile de escola de samba mudou para sempre o meu ponto de vista sobre o Brasil.

Em 1989, quando Joãosinho Trinta criou o enredo “Ratos e Urubus, larguem minha fantasia”, seu conterrâneo José Sarney cumpria o último ano de mandato como presidente da república e a inflação no mês do carnaval superou os 75%.

Quando Joãosinho usou a imprensa para dizer que “quem gosta de miséria é intelectual” estava brilhantemente contrapondo-se ao ardor moralista que é, historicamente, o primeiro a colocar o bloco na rua quando soam os primeiros tambores de momo. Não nos custa lembrar que foi a partir de uma crítica moralista sobre o carnaval que assistimos à ascensão e glória das mil e uma noites de fúria e delírio.

O país do futuro chegou. "Tá com pena? Leva pra casa."


Lá, em 89, o nordestino pobre e homossexual que chegou no Rio sonhando ser bailarino - e se tornou carnavalesco, surpreendeu a todos que esperavam mais um desfile cheio do luxo e ostentação que hoje nos são tão caros neste país dos rolezinhos. A Beija-Flor cobriu a Marquês de Sapucaí com suas alas cheias de vagabundos, mendigos e farrapos. O carnavalesco fez mais: ousou ilustrar o pai nosso de cada dia como um mendigo de braços abertos sobre a Guanabara. A alegoria foi censurada em mais uma destas ações que se repetem como farsa na história brasileira, Dom Eugênio Salles - então cardeal do Rio de Janeiro, foi à justiça para garantir que não se permitisse enxergar o Cristo mulambo.

A Beija-Flor fez um desfile épico, mas sequer venceu o carnaval daquele ano: a Imperatriz Leopoldinense foi campeã com enredo sobre a proclamação da nossa então centenária república, uma república totalmente isenta de republicanos como diria Millôr Fernandes. Mas o povo em 1989, pasmem, fez justiça com as próprias mãos e, à revelia dos juízes e contragosto dos cardeais dentro e fora da Santa Igreja, rasgaram a lona preta que censurava o Cristo Mendigo no Desfile das Campeãs.




“Reluziu, é ouro ou lata?” perguntava o samba enredo.

De volta para um futuro tão pretérito, em 2014, teremos eleições no país da Copa. Felizmente, este país ainda é, também, o país do carnaval.





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