21 de nov de 2004

DE OLHOS BEM FECHADOS

Papai estava sorrindo pra mim com uma sacola daquelas antigas de comprar pão. Eu estava deitado na parte de baixo do beliche completamente molhado de suor. Ele me falou:
– Bora rapaz, deixa de preguiça e vai lá comprar o pão. Pode ficar com o troco. Só faltam 15 figurinhas, né?
Olhei pro relógio. Peraí...O rádio relógio que tinha sido queimado com as velas estava lá inteirinho marcando quinze pras cinco. E o quarto...As paredes cheias de forminhas de gesso, com desenhos de arco-íris, ursos e outros mimos. Minhas irmãs pequenas correndo pelo beco, pus o rosto na janela e ouvi aqueles gritos misturados a sorrisos incessantes, um banho de mangueira.
Como é possível? – Pensei alto comigo.
Minha mãe passou por mim como um reflexo, os cabelos mais longos que da última vez que a tinha visto.
– Pede dois pães brotes. Teu pai te deu o dinheiro do cigarro?
Eu corri pro espelho. Mas tava tudo bem, era eu mesmo.
Decidi ir pra rua conferir se estava tudo daquele jeito de novo. Vi o portão marrom manchado pela purpurina do carnaval. O sol estava descendo, mas era forte. Quando ia saindo, Isabel, a nossa empregada que havia vendido a filha para uma família americana de Portland, me perguntou: – Menino, tu não vai de bicicleta não? Olhei pra trás e ela lá estava sorrindo pra mim com aquele buço que eu achava tão feio. E continuava feio mesmo. Corri e peguei a bicicleta, há 13 anos que eu não preciso mais de bicicleta. E era a mesma bicicleta azul de raios brilhantes de zelo, a sela agora desconfortável e aquela velha novidade do guidão reto. A sacola na mão. Os olhos fixos em tudo que se passava no caminho. Um clima bom de lembrar e constatar. Estava tudo realmente do mesmo jeito, como foi, como tinha sido. Eu era a exceção. Eu não podia estar ali, não podia ser eu. Cheguei na padaria e aquele cheiro do trigo, de coisas deliciosas assadas naquele forno que eu nunca tinha visto. Pedi os pães, não esqueci dos brotes. E também não esqueci de pedir o cigarro Free com aquele filtro longsize. Sempre pedi aquilo e nunca entendi porque. Meus pais não gostavam. Mas eu também não. Odiava o fato dos dois fumarem. Pedia de propósito por pura excentricidade. Paguei. Recebi o troco.
Subi na bicicleta e voltei pra casa já ambientado. Pessoas me reconheceram no caminho. Soltei as duas mãos do guidão. Vento no rosto e a volta daquela sensação incomparável de desafio.
Fui chegando em casa, freando a bicicleta até parar em frente ao portão. Pus os olhos pra dentro da nossa velha casa. Vi de novo minhas irmãs correndo feito loucas, papai deitado no chão descansando das férias refrescantes da praia e ao fundo o som dos engenhos culinários que mamãe preparava. Tão bom. Tanta saudade que fechei os olhos.
Sabia que quando os abrisse de novo, nada daquilo existiria mais. Jamais imaginei que pudesse ver tanta coisa de olhos fechados.

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