21 de nov de 2004

DOIS TERÇOS DA VIDA

Já passava das onze e a porta do quarto continuava fechada. Há essa hora a casa já estava em plena atividade e normalmente era ele quem começava o alvoroço, mas hoje não. - Mãe, porque que o pai tá dormindo tanto? - Não sei filho, deve estar cansado. - Mas eu nunca vi o pai dormir tanto assim, vou lá acordar ele... - Deixa o seu pai em paz, menino! Se está dormindo até mais tarde é porque devia estar precisando, vai arrumar o que fazer! O problema era que ela mesma não se convencia do cansaço do marido. Marieta decidiu espiar o quarto para ver o que estava acontecendo; abriu a porta com cuidado e encontrou o marido deitado, dormindo um sono tranqüilo apesar do barulho de quase meio dia que fazia do lado de fora. Fechou a porta e tratou de por a preocupação para dormir junto com o marido preguiçoso. O almoço foi servido e o dia seguiu como um sábado qualquer. As vizinhas perguntaram, mas Marieta não soube o que dizer porque começou a ser constrangedor o marido dormir tanto, justo num sábado de folga quando todos os vizinhos estavam em casa com suas famílias. - Antonio, chega de dormir! Seus filhos estão te esperando para passear. Daqui a pouco é noite e você aí dormindo, perdeu o dia todo! Ele nem se mexeu. Marieta então se aproximou do marido e cutucou seu braço, nada. Deu tapinha na cara, sacudiu o tronco e Antonio não esboçava nenhum tipo de reação. A essa altura os filhos e até o cachorro já estavam dentro do quarto chamando, beliscando, até água jogaram no rosto de Antonio, e nada. Depois de muita insistência e nenhuma reação Marieta sentou-se aos pés da cama e com a voz embargada proferiu o veredicto que ninguém queria ouvir: - Crianças, o pai de vocês está morto. Em pouco tempo a pequena casa estava tomada de vizinhos. Marieta, inconformada, recebia o conforto das vizinhas e todos procuravam uma explicação para uma sina tão triste, a morte repentina de um homem jovem, forte e saudável que gozava de ótima saúde no dia anterior. Os amigos da marcenaria fizeram questão de velar o corpo do colega e um deles, que era o melhor amigo de Antonio, resolveu ter com ele uma última prosa onde assegurou ao defunto que nada faltaria a sua família e que ninguém na vila se esqueceria do grande homem que ele havia sido. Prosa encerrada o amigo carinhosamente pôs a mão no rosto de Antonio: - Ué? Nunca vi morto que não fosse gelado... - chegou mais perto e pôs os dedos nas narinas de Antonio - nem que respirasse! Ele não está morto nada, gente! Um por um dos presentes do velório fizeram questão de colocar os dedos nas narinas de Antonio e constataram que de fato ele não podia estar morto. Agora se chorava era de alegria e foi mais ou menos nesse momento que chegou o dono da marcenaria, encharcado de suor, com um caixão enorme nas costas. Ele sozinho pousou-o num canto da sala e não conseguiu esconder o espanto com a euforia dos presentes. Marieta veio sorrindo e enxugando as lágrimas para receber o chefe do marido: - Marieta, ofereço a sua família um último conforto num momento tão difícil. Esse caixão é uma pequena retribuição a tantos anos de amizade e serviços prestados por seu marido. Que ele esteja em paz. Marieta agradeceu tentando assumir o tom que se espera de uma viúva no velório de seu próprio marido. - Muito obrigado Seu Juvenal mas acontece que acabamos de constatar que o Antonio não morreu, ele está apenas dormindo. O chefe arregalou os olhos e sorriu, sem saber direito como reagir a uma notícia tão inusitada: - Nossa, que benção...que susto que o Antonio nos deu, mas onde está o dorminhoco agora? - Ele ainda está dormindo. Aos poucos todos foram embora e no dia seguinte ate o médico do posto apareceu para ver o caso raro: - Morto posso dizer que ele não está mesmo, me parece estar dormindo normalmente. Sugiro que nada seja feito a não ser esperar. O caixão que ainda estava na sala foi levado para os fundos da casa e em pouco tempo já era o lugar preferido do cachorro pra dormir. As crianças também brincavam de navio dentro dele quando a mãe não estava por perto. A vida na vila e na própria casa aos poucos foi voltando ao normal. Nove dias se passaram e Antonio continuava a dormir seu sono profundo. - Parece que está sonhando, a expressão do rosto dele é serena - disse Marieta a uma vizinha em uma das muitas visitas que fazia ao quarto durante o dia para observar o marido dormindo. Ela e muitos vizinhos às vezes passavam por lá a fim de perceber se havia algum vestígio a ser descoberto, como se o sono de mais de uma semana que acometeu Antonio fosse uma charada pronta para ser desvendada a qualquer instante. Ele dormia tão tranqüilamente que sua expressão desencorajava qualquer iniciativa de acordá-lo, inibia qualquer tipo de preocupação, e assim os dias passaram permitindo sutilmente que ocorresse esse estranho hiato na vida da família. O caixão continuava nos fundos da casa e ninguém esperava usá-lo, mas ninguém, principalmente as crianças da vizinhança, esperavam que ele tivesse outro paradeiro. No décimo primeiro dia apareceu na porta da casa o dono da vendinha: - Sabe como é Dona Marieta, eu não queria incomodar, sei que o momento não é dos mais apropriados mas o Antonio havia deixado um pendura de umas cachacinhas lá no meu estabelecimento e como o mês está acabando peço para a senhora acertar. Marieta nem sabia que o marido bebia cachaça, mas acreditou no dono da vendinha, que já conhecia de longa data. Pagou na hora a suposta conta. Nessa mesma tarde foi com estranhamento que o carteiro trouxe um telegrama de um tal de Horácio endereçada a Antonio. Dada a situação Marieta não hesitou em abrir, a mensagem dizia: Antonio, Rosa aguarda dinheiro. Não fuja suas obrigações. Sabemos onde você mora. O que exatamente significa essa mensagem? Quem é Horácio, e quem é Rosa? Que dinheiro Antonio deve para Rosa? Não foi difícil constatar que Rosa muito provavelmente era uma mulher que Antonio sustentava. Marieta amassou o telegrama contra o peito e jurou matar o marido se ele ainda não estivesse morto. Entrou no quarto aos trancos e a expressão suave de Antonio dormindo agora lhe parecia uma provocação: - Miserável, miserável! Quando você acordar você vai ver! Só não te ponho na sarjeta agora mesmo por causa de seus filhos. As notícias correram a vila e em poucas horas todos já sabiam que Antonio, ao contrário do que sempre se pensou dele, gostava de cachaça e de mulher. Marieta já não sabia mais o que pensar do marido e nem chegou a se surpreender quando o vizinho da rua de baixo veio buscar o jumentinho que Antonio havia dito ter comprado para levar as crianças na escola e trazer a água. Sem pagamento, o jumento voltou para o antigo proprietário. Também não causou espanto a ninguém quando o vigário da paróquia veio cobrar a reforma do confessionário pela qual Antonio recebeu adiantado, mas nunca teve tempo para fazer. E o que dizer aos colegas de marcenaria que perguntavam a Marieta sobre o paradeiro do dinheiro confiado a Antonio para comprar uma serradeira nova na capital? Marieta sorriu ironicamente e mandou que eles fossem cobrar do morto que não morreu. Mais de quinze dias haviam se passado e Antonio continuava dormindo. Já se ouvia dizer à boca miúda que tinha gente querendo enterrá-lo mesmo respirando. O chefe de família respeitável e admirado por todos sustentava seu prestígio sabe-se lá a que preço ou há quanto tempo, mas, ao entrar em seu sono profundo, deixou vir à tona um Antonio que ninguém supunha existir. O dinheiro começou a faltar na casa de Marieta e também faltou quem se apresentasse para emprestar algum. Ela passava os dias inteiros lavando roupa de fora no tanque, só parava para atender um ou outro que tinha alguma dívida para cobrar de seu adormecido marido. Passou a anotar as requisições em pedacinhos de papel que jogava sobre o peito de Antonio. Em pouco tempo a cama mais parecia uma mesa de escritório. Tratou também de proibir as crianças e o cachorro das brincadeiras dentro do caixão porque esse se revelou um ótimo depósito para as roupas lavadas e passadas que agora se somavam em cada vez maiores quantidades. Nessa mesma semana quem foi bater na casa de Marieta foi a tal de Rosa, de mãos dadas com um garotinho engraçadinho que tinha todo o jeito de Antonio. Um dos filhinhos de Marieta já foi chegando no portão com lápis e papel na mão e, como se tornara de costume, orientou a mulher a escrever o nome e a dívida que o pai a procuraria assim que acordasse. - Antonio está dormindo faz quase duas semanas -- disse Marieta num misto de raiva e compaixão. - Mas como? Ele está morto? - perguntou Rosa relaxando a altivez com que tinha chegado na vila. - Morto ele não está, mas não se sabe quando ou mesmo se algum dias ele vai acordar. Pode deixar que eu mando ele te procurar caso isso um dia aconteça – disse secamente. No dia seguinte Marieta acordou para fazer o café da manhã, ao adentrar a cozinha encontrou a mesa posta e Antonio de costas no fogão fritando ovos. Ela pôs a mão na boca escancarada de surpresa e seus olhos marejaram de felicidade. Nem pode se mexer de tanta emoção e os filhos entraram na cozinha correndo e se abraçaram ao pai com tanta intensidade que a frigideira quase caiu do fogão e causou um acidente. - Mas o que foi que aconteceu nessa casa? Perguntou Antonio achando graça no carinho excessivo dos filhos - o que houve por aqui Marieta? A mulher que até agora nada tinha dito pensou o que iria responder ao marido. Tanta coisa havia acontecido enquanto ele dormia, tanta coisa ela passou a saber dele, que se fosse seguir a risca o que havia planejado para caso esse momento acontecesse, essa teria sido a última manhã que Antonio passaria naquela casa. Mas não era assim que seu coração sentia; as tantas vezes que ela viu em sua mente aquele re-encontro acontecer e tudo que ensaiou dizer a Antonio havia se esvaído porque Marieta só pensava em abraçar seu marido e celebrar com ele a vida que ele nem ao menos sabia o quanto esteve próxima de lhe escapar. E nessa história que parecia um pesadelo, que de tão irreal escapava aos toque do verrosímil, não custava muito a ela pensar que tudo que se sucedera no último mês tratava-se apenas de um sonho ruim. Por certo para a vila seria mais difícil perdoar as falhas de Antonio, mas em nome dos filhos e do amor que sentia por aquele homem, Marieta decidiu relevar. Percebeu-se também que o ímpeto de deixar a vida descabida do marido mentiroso para trás poderia passar e que ela mesma tinha grandes chances de mudar de idéia e deixar a realidade adentrar aquele mundo de sonho que insistia em perseguí-los caso não agisse logo. - Vamos Antonio, vamos! Arrume suas coisas, precisamos partir já dessa casa. Em poucos minutos Antonio e sua família deixavam a casa, antes mesmo de amanhecer, descendo a rua principal da vila caminhando e carregando tudo que conseguiram por dentro do caixão.


Bruno Medina é tecladista do Los Hermanos e autor do Instante Anterior

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