21 de jun de 2010

O politicamente correto invadiu o campo

É tempo de Copa do Mundo e o país inteiro que já tem 190 milhões de técnicos ganha repentinamente alguns milhares de patrulheiros da ética. O curioso é que como sempre, o brasileiro não ousa deixar sua sanha moral passar da linha que separa o futebol da vida real.

A "absurda imoralidade" da vez no país dos ficha-suja foi o uso de expediente ilegal (o braço) por parte do atacante Luiz Fabiano ao marcar o segundo gol do Brasil contra Costa do Marfim. Os recém-nomeados guardiões dos bons costumes protestam contra a passividade da imprensa que estaria relativizando as críticas ao árbitro que não anotou irregularidade no lance do gol. Segundo esse pessoal que cobra mais do Dunga do que do Lula, é imoral exigir justiça no lance de Henry - que usou a mão para levar a França à Copa, e calar quando há situação idêntica no belíssimo gol brasileiro anotado pelo Fabuloso.

O problema é que não há nada de errado no que fizeram Henry e Luiz Fabiano. Pelo menos não do ponto de vista esportivo, porque o uso de artificios em busca de vantagens competitivas dentro do campo não é novidade, nunca foi em nenhum esporte de alto rendimento, talvez com a exceção do tênis em que comportamentos desse tipo são - antes de severamente punidos pela opinião pública, vistos como desrespeito e deselegância para com o adversário. O que há de novo é esse movimento orquestrado e equivocado de tentar transformar um lance de disputa esportiva numa crônica do que se vive fora do campo. Como se lá no gramado não houvesse mecanismos, como o árbitro e seus auxiliares, para julgar se há ou não boa fé nos lances. Mas a mania de dar lição de moral no comportamento alheio criou monstrengos burocráticos como Tribunal de Justiça Desportiva, a tese canhestra do campeão moral ou ainda a estapafúrdia teoria de que, em ano de Copa, quando a seleção vence a situação ganha a eleição.

Ao que parece, o tempo passou e o futebol involuiu, pelo menos no Brasil: onde jornalista e comentarista de futebol cobram resultado a qualquer custo mas bradam por justiça no pior estilo policialesco, exigindo "atitudes enérgicas das autoridades contra a violência" quando alguém se excede na disputa. Os mesmos jornalistas que alimentam a tese do futebol-carcará-pega-mata-e-come e depois reclamam quando técnicos agem como se time e torcida fossem peças de tabuleiro.

O politicamente correto invadiu o campo junto com um ranso moralista e subdesenvolvido, de gente que terceiriza a responsabilidade de mudar o Brasil e se mete a legislar sobre aquilo que o país tem de mais original. Essa gente que enche a boca para dizer que o Brasil não vai pra frente por causa do carnaval e do futebol.

Futebol é só um jogo. O assunto mais importante dentre os menos importantes, mas ainda assim apenas um jogo. Paradoxalmente, carnaval e futebol são traços marcantes de nossa identidade justamente porque nunca foram levados à ferro e fogo.



Um comentário:

Anônimo disse...

Vamos fazer o seguinte:Você vai no futebol que eu jogo, aí eu te dou um carrinho como aquele que o Marfinês deu no Elano(e o nosso juiz não vai marcar falta...).
Aí você volta a falar sobre politicamente correto no futebol, ok?