19 de ago de 2010

24 anos andando em círculos – O que a história tem a dizer sobre as eleições de 2010 na Paraíba

A primeira eleição que acompanhei na Paraíba foi em 1986. A efervescência pós-diretas-já era contagiante, ainda havia o lamento pela diverticulite que solapara Tancredo Neves da cadeira de presidente, mas a redemocratização era irreversível e, na época, ninguém ligava em ser fiscal do Sarney. O plano cruzado, que tentava derrubar a inflação, se mostrou infalível como cabo eleitoral e o PMDB venceu a eleição em todos os Estados, menos em Sergipe. Ainda hoje, os peemedebistas podem ser considerados integrantes do maior partido do país: é a maior bancada do Congresso Nacional e governa 9 estados.

No Brasil, de Sarney a Lula, pode-se dizer que 5 partidos já ocuparam a Presidência da República: PDS, PRN, PMDB, PSDB e PT. Depois de cumprir 5 anos de mandato, o bigode imortal de Sarney(PDS) cedeu lugar ao caçador de marajás Fernando Collor de Melo (PRN) que logo depois saiu cassado por corrupção. Itamar Franco (PMDB) derrubou a inflação com o topete, Fernando Henrique (PSDB) levou a fama, vendeu a tese da reeleição e cá estamos sob a batuta firme do companheiro Lula (PT).

Na Paraíba, a história anda em círculos. De 86 para cá, nada mudou. Os atores fingem, mas a trama é a mesma – um mesmo núcleo de poder se engalfinha num embate que já teve de tudo: traição arquitetada, acordo de cavalheiros, atentado à bala, dossiês preparados, alianças feitas e desfeitas e até cassação. Mas o mesmo PMDB que elegeu Burity em 1986, em algum momento já abrigou embaixo da saia todos os aliados e adversários de hoje. O PSDB, dissidência de figuras proeminentes do PMDB de São Paulo, na Paraíba apenas acomodou o espólio da crise do Clube Campestre: o grupo dos Cunha Lima, que bateu em retirada após o cisma com o atual Governador José Maranhão, escolheu o PSDB no melhor estilo “não tem tu, vai tu mesmo”.

Pode-se dizer, portanto, que a única novidade, em pelo menos 20 anos de política partidária na Paraíba, foi o surgimento da liderança de Ricardo Coutinho, que de vereador a prefeito de João Pessoa, construiu uma trajetória política de independência e de realizações indiscutíveis.

Fica claro ao se esboçar tal quadro histórico que Ricardo Coutinho já era, bem antes das definições que resultaram na atual composição política das eleições, um forte candidato ao Palácio da Redenção. Basicamente porque a coligação entre tucanos e democratas apresentava evidente estremecimento pelo episódio da cassação do ex-governador Cássio Cunha Lima e, depois, pelas claras mensagens enviadas do próprio ninho tucano dando conta de uma iminente cisão entre o PSDB de João Pessoa e o de Campina Grande. Entre os democratas, havia o desgaste natural de Efraim Morais, cada vez mais ligado a escândalos no Congresso e à atuação de forte oposição ao Governo Lula. O cenário do jogo para 2010 era: Maranhão com um mandato curto e vários impeditivos, fazendo frente a Ricardo e seu mandato de realizações e um projeto falido de aliança entre PSDB e PFL.


"Aliança tirou protagonismo histórico de Ricardo"


O tempo passou e hoje Ricardo Coutinho encabeça chapa na companhia de Efraim Morais e Cássio Cunha Lima, de olho na interiorização de suas bases eleitorais e no fortalecimento de sua imagem junto ao eleitorado de Campina Grande. Entretanto, me parece que a opção pela formalização da aliança com o DEM e o PSDB desconsiderou o contexto histórico, neutralizou o discurso e, principalmente, tirou de Ricardo o protagonismo de ser o único candidato contra o atraso histórico da Paraíba. Ele viu aportar em sua agenda, ações e eventos que em nada casam com sua biografia, como o coro que fez ao bordão “Deixa o povo votar” que, na verdade, era eufemismo para campanha contra a Ficha Limpa. A estratégia eleitoral de Ricardo desconsiderou os prováveis estragos em sua imagem mirando apenas nos ganhos; quando na verdade, o arranjo com cara de gambiarra traz muito mais prejuízos do que benefícios.

Os feitos da administração de Ricardo Coutinho em João Pessoa se devem basicamente à ascensão de um novo modelo de gestão baseado na mudança do perfil de servidor público. Quando Ricardo assumiu a Prefeitura levou junto pessoas com novas ideias, geradas por cabeças arejadas não acostumadas aos vícios do que o funcionalismo tem de pior. Posso dar o testemunho isento porque vi vários colegas, professores, intelectuais, artistas e sindicalistas assumirem cargos na administração, muitos em cargos de liderança. Some-se a isto, a mudança em nível federal que levou muitos quadros da esquerda ao controle de autarquias e estatais, criou-se um ambiente fértil para que florescesse em João Pessoa um estilo de governo reformador e progressista. Tudo isso foi subestimado em detrimento de um suposto ganho de densidade eleitoral.

A aliança tenta a fórceps unir gente que se serve do Estado há décadas com jovens responsáveis pela implantação de um modelo de gestão focado no interesse público. Uma situação difícil de engolir para os aliados históricos de Ricardo, mas que desceu goela abaixo, foi digerida e regurgitada em forma de uma retórica que lembra a moral da história contida em uma das brilhantes frases do publicitário Eugênio Mohallem: “planejamento serve para guiar as campanhas de sucesso e não para justificar as péssimas”.


2 comentários:

Anônimo disse...

Análise palpitante neste blogue, textos como aqui está destacam a quem ler aqui :)
Dá muito mais deste espaço, a todos os teus utilizadores.

Astier Basílio disse...

Lula, se eu não tiver enganado, qdo Sarney assumiu a presidência ele já havia saído do PDS - tanto é q compôs chapa contra o candidato do PDS, Paulo Maluf - o PDS, de Sarney p/ cá, não nos governou. Abs