16 de set de 2011

Aos inimigos, a lei.





Capítulo I - Apenas um fim de semana

Estamos em um cenário paradisíaco no Brasil: Porto Seguro, Bahia. Um grupo de pessoas ricas e bem sucedidas festeja o fim de semana enquanto fazem um traslado de helicóptero para um resort em Trancoso. Como há muitas pessoas, a aeronave precisa fazer duas viagens: o primeiro grupo chega em segurança, mas um terrível acidente impede que as pessoas felizes do segundo grupo - entre elas, a nora do atual governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho - cheguem ao seu destino.

O acaso aquece o que seria o noticiário de um domingo qualquer de inverno brasileiro: descobre-se que o piloto estava com a habilitação vencida há 6 anos; o Governador do Rio afirma em nota oficial que vai até a Bahia acompanhar as buscas; o prefeito de Porto Seguro diz a um jornal de Salvador que encontrou com Sérgio Cabral passeando na cidade um dia antes do acidente; O Globo noticia que Sérgio Cabral viajou até a Bahia no jatinho do empresário Eike Batista... E assim, a comovente história de um acidente que ceifou a vida de jovens, senhoras e crianças de colo se revela numa trama que ajuda a explicar um dos flagelos brasileiros: a promíscua relação entre entes públicos e a iniciativa privada.

Na esteira dos acontecimentos, soube-se que Sérgio Cabral estava entre as pessoas felizes a bordo na primeira viagem de helicóptero à Trancoso. Havia trocado o stress com a greve dos bombeiros no Rio por um fim de semana ao lado do amigo e empresário Fernando Cavendish, dono de uma das empreiteiras responsáveis pela reforma do Maracanã para a Copa de 2014, obra avaliada na casa de R$1 bilhão.


Capítulo II - Os anos do Brasil na França

Do ano da graça de 1999, no Brasil sob a regência de Fernando Henrique Cardoso...Abílio Diniz, dono do Pão de Açúcar, vendia parte de suas ações para o grupo francês Casino. O acordo previa entre outras coisas, que após 13 anos, o Casino controlaria a operação do Pão de Açúcar no Brasil.

Ativemos o capacitor de fluxo para o futuro do pretérito. Como pudemos acompanhar no noticiário econômico em julho, Abílio Diniz ressurgiu com mais um negócio que abalaria as estruturas da economia: uma fusão com as bençãos do BNDES entre Pão de Açúcar e Carrefour que criaria um monstro que abocanharia 27% do mercado varejista no Brasil. De uma só vez, o visionário Diniz levaria na valsa o Casino que, a apenas 1 ano de assumir o controle do Pão de Açúcar, teria que engolir o maior concorrente e o Cade que teria que se virar para justificar o mais novo monopólio no mercado.

Mas aí a imprensa estraga-prazeres, a oposição e a voz rouca da sociedade civil organizada resolveram que seria cínico demais bancar com dinheiro público uma jogada privada. Abílio Diniz foi obrigado a sair à francesa.


Capítulo III - No terreno das hipóteses

Em João Pessoa, um grupo de arrojados empresários demonstram, ao longo dos anos, muito interesse em construir um shopping na Zona Sul da cidade. Muitas das construções mais importantes daquela região são do Governo do Estado como Detran e Acadepol, por exemplo.

Um dia antes do famigerado recesso parlamentar, o Governo envia matéria para votação no plenário da Assembleia Legislativa: uma permuta entre terrenos. No projeto que se pretendia lei, o grupo de empresários receberia o terreno onde hoje está instalada a Academia de Polícia e, em troca, cederia uma área localizada no Geisel, região supostamente menos valorizada, se comprometendo ainda a ajudar o Estado a construir as novas instalações da Acadepol.

O presidente da Assembleia resolveu que o assunto só seria resolvido depois do recesso: a oposição caiu de pau; colocaram a permuta sob suspeita; acusaram o Governo de tentar votar a matéria em toque de caixa; as mesas-redondas sobre política ganharam pauta permanente; setores da imprensa criticaram e/ou apoiaram a iniciativa do Governo em prol do desenvolvimento; muita gente se solidarizou com os "empresários da terra" que só estariam interessados em investir no Estado e após muito lenga-lenga, o projeto foi aprovado.

Após meses de debate estéril, o desenvolvimento de Mangabeira e de toda Zona Sul parecia enfim, garantido. Entretanto, faltava a cereja do bolo: nos dias seguintes à aprovação na Assembleia, a cidade acordou com outdoors assinados por um tal Fórum de Defesa do Desenvolvimento Econômico da Zona Sul que estampavam os rostos dos políticos que foram contra a permuta entre os terrenos.

Epílogo

Dizem que o pernambucano Gilberto Freyre escreveu sua obra-prima Casa-Grande e Senzala porque não conseguia explicar o que era o Brasil aos colegas de estudo no exterior. A capacidade de relativização moral e a astúcia individualista do brasileiro na sua relação entre o público e o privado realmente confundem quem não está afeito aos modos nos trópicos. 

Mas em uma das passagens do clássico que melhor sintetizam o Brasil, Freyre cunha uma frase antológica: “a virtude da senhora branca apóia-se em grande parte na prostituição da escrava negra”.


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