21 de jun de 2004

PELA HONRA DE GREYSKULL

Era do alto do Chevette SL do meu pai que eu vi a minha infância passar. E se você quiser algo mais anos 80 ainda, antes dele, havia um Corcel. Era um Corcel creme, assim como o Chevette, que só reforçava a proposta daqueles tempos. Daí eu te pergunto: qual era a proposta daqueles tempos? Pelo menos pra nós, crianças naquela época, a proposta era assistir ao sorteio do Xou da Xuxa every day...
“E se você quiser participar do nosso sorteio é só escrever para rua Saturnino de Brito, 74, Jardim Botânico, Rio de Janeiro. O Cep é 22470. Moderninhooooo”. Eu tinha que falar que ainda lembro disso. Eu e minhas irmãs fazíamos cartinhas, muitas delas, e brincávamos de sorteio na garagem da nossa casa. Outro dia conversando com uma amiga do trabalho, descobri que ela também fazia a mesma coisa. Não posso falar pelo universo dos meninos. Mas é facinho que eles tivessem uma espada do He-man ou bonecos do DI Joe. (Até eu tinha!) Do que será que as crianças brincam hoje? Eu vejo meu filho reproduzir todos os gritos de guerra de desenhos que horrorizam os pais pelas doses de violência que propõem. Mas o horror da gente no fundo é pura nostalgia. Talvez toda época tenha a dose de violência que mereça. Já pararam pra pensar nisso? Eu já. Tudo era sempre mais bonito na nossa época. E não há melhor nem pior, só há a diferença do tempo. E assumindo isso, eu posso prosseguir mais tranqüila. Eu corri de bunda-rica pela casa, usei saia balonê, ouvi os LPS da minha mãe e quis ser como a Cláudia Ohana na novela Rainha da Sucata. Ta tudo bem, já era 1990. Mas a década ainda estava lá impregnada. Assim como todos os desejos que nós tínhamos naquela época. Quem nunca imaginou a distância da idade? “Nossa quando eu tiver 21 anos eu já vou estar ...”. Era longe não é mesmo? Chegou tão rápido... E essa vontade louca de sempre voltar à nossa juventude ou a nossa infância quando tudo parece sem sentido. Há todo sentido do mundo nesse eterno retorno. À medida que o tempo passa, a gente se esquece e se afasta do que quer realmente. Por isso, vocês ainda irão assistir ao retorno dos anos 90, dos anos 2000, 2010... 2015. Porque enquanto houver quem envelheça, vai haver cansaço, nostalgia e saudade. E se você não está entendendo nada do que eu digo, faça o seguinte: ouça Boys don´t cry do The Cure num sábado à tarde e depois volte aqui pra dizer... não parecia que você ia conquistar o que quisesse? Eu achava que sim. E pra falar a verdade, quando ouço, ainda acho que posso. E é por isso que a gente volta. Pra entender que a gente sempre pode, independente do tempo que for.

Julliana Veloso Machado
É jornalista, redatora de publicidade e produtora de TV
Atualmente faz especialização em Marketing e Publicidade no IESP

Nenhum comentário: