3 de ago de 2004

CULTO NO 401

Cinza, era a cor daquela manhã.
E eu lá, no interior da condução, em pé, segurando o apoio de metal, frio. Nada muito anormal. Alguns decotes, alguns olhares, alguns bocejos, e lá fora o mundo molhado. É engraçado como as pessoas gritam por dentro, gritos desesperados, silenciosos, secos, vez por outra dá para ouvi-los pelas frestas dos olhos, olhos quase sempre tristes.
Diferente dos olhos do cego pedinte, figura interessante. Subiu na parada do supermercado. Tateando os passageiros, ia apanhando as moedas que alguns poucos generosos lhe entregavam. Uma a uma. Órbitas vazias, mas ainda assim um olhar risonho, típico dos cegos. Enquanto agradecia a todos, anunciava que bebera muito no tempo em que era mais moço, mas havia mudado, transformou-se num homem melhor, consciente, maduro, e aquele dinheiro iria lhe proporcionar um bom café da manhã.
- ALELUIA.
Alguém gritou.
-AMÉM SENHOR.
Mais um grito.
Pra complementar, um senhor alinhado no banco da frente do ônibus pregou:
- Quando o céu se abrir e o salvador voltar em cima de uma nuvem iluminada, assim como está escrito no livro sagrado, ele o levará para o reino de Deus, pois lá é o lugar dos justos e dos pobres.
Aleluias e améns soaram vibrantes pelos quatro cantos do veículo. (Curiosa manifestação).
Sutilmente um velho que estava no banco de trás do ônibus, falou para o cego com a inteligência e a lucidez dos conformados:
- Receba teus trocados e siga em paz meu velho. Poupe os ouvidos, tu não vê que já passou da hora dele voltar? Quando você partir desta para melhor, enxergarás a verdade.
Falou com um riso interrompido no lado esquerdo da boca e voltou ao seu silêncio.
- ESTÁS AMARRADO EM NOME DE JESUS.
O homem alinhado gritou abruptamente, já ereto com as veias pulando da garganta e olhos de ira.
- És instrumento de satanás e estás tentando ludibriar este pobre coitado...
(Iniciou-se uma ávida e longa pregação)...Saiba que Deus mandou seu filho para salvar-nos dos nossos próprios pecados, ele morreu por nós e prometeu voltar, tenha certeza que este dia está próximo, se arrependa do que falou, homem sem fé, e serás salvo...
(Olhos cerrados, murmúrios, gritos breves, mãos dadas)... Não queiras sentir a ira de Deus, pois Deus não é só amável, Deus também é fogo, o fogo divino... (Minutos correndo, crianças confusas, respingos de chuva pelas brechas das janelas)...Quem aceitar a Jesus, seguirá com ele para o reino dos céus, onde as estradas são de ouro e as paredes de diamante e... (POU).

Súbito silêncio.

O velho do banco de trás levantou calmamente, guardou o 38 de onde saiu um único e certeiro tiro em direção a testa daquele senhor histérico no outro extremo da lotação, pôs o jornal embaixo do braço, pagou a passagem e desceu juntamente com o pobre velho cego.
Me vi no inferno em meio a gritaria e o desespero coletivo sufocando a paz daquela manhã, o céu cinza do outro lado da janela foi se abrindo, alguns raios de luz surgiam em meio as nuvens pesadas, confesso que lembrei da tal nuvem iluminada, intimamente um suspense, uma espera....
Logo a imagem do pobre cego no fiteiro ao lado da parada, jogando um pouco de cachaça pro santo antes do ríspido gole, me fez enxergar o sol.


J.Falcão é músico e diretor de arte.


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