6 de ago de 2004

O REINO DA ALEGRIA

“Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso senhor” Mt 24.42.

– Por que caçoas de mim? Nunca foste cínico.
– Eu é que não entendo por que depois de tanto tempo, você ainda insiste em querer pregar pra...
– Prego sim. Minha vida é a pregação da palavra, você sabe disso. Prego, prego, prego...Até quando puder e quiser.
– Não se exalte, tá. Você não precisa repetir essa ladainha. Esse papo de prego-prego-prego funcionou há muito tempo atrás com outra pessoa, não comigo.
– Pelo amor de Deus, não blasfeme nem seja irônico.
– Peraí. Você vem aqui no meu trabalho a esta hora da noite, chorando e questionando os seus próprios princípios e depois vem me acusar de ser irônico.
– Toni, não preciso lembrar que sou sua namorada né? Achei que você podia me ajudar.
– A gente está tão diferente um com o outro, desde que você arrumou este emprego.
– Espera...Por favor, o que há de ruim em fazer o que faço?
– Você está iludindo as pessoas. - a namorada de Toni soluçava, e tinha o rosto corado, quente com aquelas lágrimas de raiva.
– Vamos parar. Não adianta. Que porra é essa? Quer dizer que eu, um simples operário, agora sou enviado da mentira?
– Ósteas, Toni. Você sabe o que são ósteas. Apesar de fazer pose de cético, você sabe que isto é uma ilusão.
– Ilusão? Eu tenho o corpo de Jesus em minhas mãos toda noite.
– Você está louco.
– Sinceramente...O que você veio fazer aqui?
– Queria lhe ver. Estou com medo de estar perdendo a fé e estava a procura de um pouco de atenção. - Toni olhou por cima dos óculos e começou a cantar.
“Deixe-se acreditar, nada vai acontecer. Tudo pode ser, nada vai acontecer. Não tema que este é o Reino da Alegria”.
Toni começou a rodar pela sala, sorrindo bastante. Sorria tanto que já chorava com as mãos controlando as contrações do abdôme. Ele foi parando de sorrir até se encostar numa pilha de ósteas, esperando para serem separadas. Lia com o olhar embaçado pela temperatura das lágrimas, olhava pra aquilo com tristeza, balançando a cabeça negativamente.
– Toni, no que você se transformou? - Lia perguntava, enquanto seu namorado assoava o nariz irritado, por causa do choro, num pedaço de óstea.
– Lia...Odeio transformações. Adoro vinho e não gosto de truques.
– Você não respeita nada. Acho que perdi meu tempo vindo aqui.
– Saiba que o corpo de Jesus já foi meu companheiro em momentos de solidão aqui na fábrica. Posso afirmar que o corpo de Jesus serve mesmo para limpar a gente. Sabe como é?! A gente se vira como pode quando está sozinho.
– Você está louco.
– Não me procure nunca mais. Não tenho paciência para estes seus sermões.
Lia saiu em prantos, passou pelos corredores e quase escorregou nas poças de óleo que servem para lubrificar as máquinas da fábrica. Saiu da fábrica e sentiu as gotas de chuva aliviarem a temperatura febril de seu rosto. Aproximava-se lentamente, chorando um pouco mais alto por causa da chuva e da aparente solidão da madrugada, do portão de saída, quando começou a ouvir passos – vacilavam aqueles passos, pareciam vários, mas ela só enxergava uma sombra. Apressou-se e mergulhou naquele misto de medo e curiosidade de querer olhar pra trás. Até que criou coragem e virou de costas para se ofuscar com a luz forte da lanterna de um homem alto, que mancava, tinha feições grosseiras e conduzia um cão negro. Ele olhou fixo nos olhos molhados de Lia e sentenciou:
– Você não sabe se quer sair?
– Você não sabe o que é estar só.

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