8 de jul de 2004

MEDO DE SHOPPING

Um dia antes, saí suando frio por causa da claustrofobia. Palavras, apenas com os funcionários do motel em que estava instalado. Nunca um hóspede de motel fizera tão pouca questão de privacidade e discrição quanto eu. Comecei pedindo um hambúrguer, não porque estava com fome, e sim porque senti falta de falar com alguém. Saí cedinho do motel e me certifiquei de que não esqueceria de nada que pudesse me atrapalhar durante o dia. Dinheiro, remédio para dor de cabeça, walk-man tocando Razorblade Suitecase* e um sorriso no rosto pronto para amenizar minha angústia. Rodei. Tudo andou em círculos. Vi mulheres lindas, crianças chorando nos brinquedos de plástico bio-degradável, hastes de madeira rodando em fios de açucar, e as músicas no random, no repeat...
O belo violino nos acordes das canções do Razorblade marcou o dia como uma cicatriz de um ferimento profundo. Chorei muito ao ver que podia morrer ali rodando naquele shopping tão tranqüilo. Provavelmente ninguém verteria lágrimas por um desconhecido. Chorava no banheiro, porque não queria que as pessoas me vissem. Mas sempre deixava lágrimas num canto de olho. A gente sempre acha que as pessoas têm interesse espontâneo por nós. Esperava mesmo que alguém olhasse exatamente naquele canto do olho, que continha só um pouco do que me sobrava. Era medo. Comecei a me perguntar porque estava ali. Estava ficando escuro, a cidade era grande, e eu passava por becos ainda mais assustadores que os sentimentos autodestrutivos que sentia.
Estava só. Poderia fazer o que quisesse. Poderia desistir de tudo e voltar. Por que insistir em continuar passando despercebido? Sabia que era importante continuar, mas estava doendo muito a solidão. Na verdade, tinha medo de assumir uma tarefa que nunca tinha cumprido. Sempre fui centro, nunca tinha sido periferia. Naqueles momentos, eu estava esquecido. Notei que tinha medo de ficar só , de morrer só.
Mesmo sofrendo e chorando, decidi que só sairia de lá quando terminasse o que tinha de fazer. Os soluços continuavam, as lágrimas haviam untado as maçãs do meu rosto com um óleo que cintilava à medida que passava pelas placas e vitrines iluminadas. Deu para compreender perfeitamente o significado de walkman, o enjôo foi latente e aos poucos pude ouvir acordes descompassados, uma voz desafinada que de certa forma acalmou meus pensamentos. Segui o som, mas desvendei a ilusão antes das miragens. Fiquei de longe observando o caos sonoro daquele shopping, me convencendo de que seria impossivel para alguém conseguir ser ouvido com a atenção necessária, mesmo rosto a rosto, quanto mais à distância e intermediado por uma aparelhagem tão sofrível quanto a acústica malfeita daquela construção. Sucessos do rádio se intercalavam enquanto tentava decifrar as letras de cada canção entoada pelo músico. Pensava: “O que será que esse cara deve pensar de cantar nesse barulho todo? Se eu fosse esse bicho, não pagava esse mico.” De repente notei que havia algo mais incômodo que o barulho ensurdecedor do cotidiano climatizado daquela praça de alimentação. O tal músico errava sempre algumas estrofes das músicas, e o erro era insistente. Será que só eu notava?
Quase tomei nota do erros... Aquilo estava realmente me atormentando. De uma hora pra outra esqueci do sofrimento daquele dia e passei a me perguntar o que fazia um cara como aquele, cantar numa merda barulhenta daquelas e nem se dignar a lembrar das letras. Passei a me aproximar mais rapidamente do tal cantor. O fim da apresentação estava próximo. Não havia possibilidade de bis. Ninguém prestara tanta atenção assim. Procurei o canto de olho, o mesmo untado das maças, entretanto enxerguei mais naquele homem baixo e levemente calvo, que se aproximou de mim e perguntou:
– Pois não. Algum problema?
Haviam muitos, mas algumas perguntas não se respondem. Calei e, logo em seguida, perguntei:
– Você canta aqui há muito tempo?
Ele me olhou, no canto do olhar não tinha nada. Nas maças, nenhum sinal de sofrimento. O sorriso enganou mais que sua resposta.
– Hoje é meu último dia. Não se preocupe.
O homem saiu. Violão nas costas e passos firmes, sequer olhou para trás.
Mirei-me em seu exemplo e me arrisquei nos becos daquela cidade fedorenta até chegar no motel. Deitei cedo, dispensei o hamburguer com o tempero emocional e sonhei com o dia em que iria embora dali.
Acordei cedo demais para um banho, mas tarde para o café grátis. Fechei minha conta e pus as mãos na bagagem que agora parecia bem mais pesada. Sentado numa cama redonda de motel, cansado de rodar em busca de algo que justificasse tanta solidão, eu abri o jornal do dia e comecei a especular até quando agüentaria. Primeiro na página de esportes (aí muita gente foi preterida), depois conferi o sangue anônimo que corre nas páginas policiais. Lá, nas últimas colunas, uma foto em tons de cinza, e um título popularesco, me chocou.

Corda de violão vira forca para músico na Bela Vista

A foto era daquele homem. O mesmo idiota que errava a letra das músicas.
Naquela hora entendi o porquê do sorriso dele. Ficou claro que ele errava para tentar atrair a atenção das pessoas. Percebi a minha idiotice. Na verdade não havia enxergado nada. Os acordes desafinados e as letras erradas eram o canto de olho, a maçã untada daquele cara.
Olhei demais pra mim para tentar decifrar porque tanto medo. Na odisséia circular por aquele shopping, me deixei levar pela tola apreciação de que o mundo girava ao meu redor.
Ignorei a verdade incontestável de que o medo mede nossos limites.


*Razorblade Suitecase (1996) é o segundo álbum da Banda de Rock Britânica Bush

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